Graça Soberana

CENTRADOS NO EVANGELHO: reflexões cristocêntricas sobre a graça e as insondáveis riquezas do evangelho na vida de um desprezível pecador

Por que “graça soberana”?

Graça, soberana graça

Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens. Ela nos ensina a renunciar à impiedade e às paixões mundanas e a viver de maneira sensata, justa e piedosa nesta era presente, enquanto aguardamos a bendita esperança: a gloriosa manifestação de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo. Ele se entregou por nós a fim de nos remir de toda a maldade e purificar para si mesmo um povo particularmente seu, dedicado à prática de boas obras.

Tito 2.11-14 (NVI)

É maravilhoso sabermos que temos um e somente um evangelho! A mesma graça que nos salvou continua em operação para nos santificar. Não avançamos, partindo do evangelho recebido nos primeiros passos de nossa caminhada com Deus para algo “diferente” no processo de discipulado e crescimento espiritual. Não! O mesmo poder residente no evangelho para nossa salvação opera também para nos santificar… A Bíblia não nos permite aceitar nada menos que isso!

Que implicações isso pode ter na prática? A mais doce de todas. Não crescemos abraçando ativismo ou moralismo, não crescemos por um esforço concentrado, nem por adotarmos métodos ou disciplinas eficazes… e jamais por achar que temos algum mérito que nos dê direito à graça. Antes, qualquer milímetro ou centímetro de crescimento espiritual, atribuímos ao poder da cruz e à operação da graça soberana de Deus em nossa vida: à obra do Espírito.

Nossa tendência, porém, é agarrar-nos às nossas obras, nossas obrigações cumpridas, nossa disciplina, acreditando que com essas coisas conquistamos a graça de Deus. Como diz Jerry Bridges, em Transforming grace [Graça transformadora] (p. 32), “Agimos como se a graça de Deus apenas preenchesse aquilo que falta em nossas boas obras. Cremos que as bênçãos divinas são obtidas ao menos em parte por nossa obediência e nossas disciplinas espirituais. Sabemos que somos salvos pela graça, mas achamos que precisamos viver pelo ‘suor do nosso espírito'”. Mas, como Samuel Storms nos afirma: “A graça deixa de ser graça se Deus for compelido a outorgá-la em presença do mérito humano […]. A graça deixa de ser graça se Deus for compelido a retirá-la em presença do demérito humano […]. [Graça] é tratar alguém sem a mínima menção de merecimento, qualquer que seja, mas exclusivamente de acordo com a infinita bondade e com o soberano propósito de Deus” (The grandeur of God [A grandiosidade de Deus], citado por Jerry Bridges em Transforming grace, p. 33).

Quero aqui celebrar a infindável e sempiterna graça de Deus! Para citar Bridges de novo, queria oferecer uma definição de graça por ele proposta: “Graça é o favor livre e imerecido de Deus demonstrado a pecadores culpados que somente merecem condenação. É o amor de Deus demonstrado aos indignos desse amor. É Deus descendo e alcançando pessoas em estado de rebelião contra ele” (Transforming grace). Tal definição, em total harmonia com a apresentação bíblica do evangelho, só faz brilhar a graça de Deus com ainda maior fulgor! E é com esse esplendor que quero presenteá-lo neste blog, enquanto medito em como a graça me alcançou, me transforma a cada novo dia e me sustenta… enquanto aguardo a “bendita esperança”.

Eu o convido a ler minha modesta tradução do fabuloso hino de Augustus Toplady (1740-1778), o grande compositor reformado inglês do século 18: A debtor to mercy alone. A melodia contemporânea é da autoria de Bob Kauflin, gravada em seu álbum Upward.

Da graça eu sou devedor;
proclamo a aliança de Deus;
mais vale a Justiça, Senhor;
humildes, meus votos são teus.
Os juízos de tua santa lei
estou certo que não sofrerei;
o sangue e a obediência da cruz
apagam os pecados, Jesus.

A obra iniciada por ti,
com mão forte a completarás;
tu vais a promessa cumprir;
bem sei, tu jamais falharás.
Presente e futuro estão
seguros, Senhor, em tua mão;
não há quem se possa interpor
nem tirar de minha alma teu amor.

Impresso em teu coração,
meu nome pra sempre estará,
gravado, Senhor, em tuas mãos
com marcas da graça sem par.
Sim, vou sempre perseverar,
para ante teu trono eu estar,
seguro pra sempre estarei,
devendo só à graça, meu Rei.

Devendo à graça…

Graça soberana: uma contradição de termos?

Assim, hoje também há um remanescente escolhido pela graça.

Romanos 11.5

Depois de uma vida inteira de acirrado legalismo, não foi sem certo choque que deparei com “graça soberana” como formulação teológica. Tudo que eu queria e precisava ouvir era a respeito de uma graça de fato graciosa, não soberana. Chegava de policiais! Bastava para mim de julgamento e controle!

Mas a graça só é graça porque existe um Soberano, que livremente a outorga. E, se queremos uma graça permissiva, afastamo-nos totalmente do conceito bíblico de graça. Não podemos, na verdade, sequer começar a entender a graça se não passarmos nosso dias estudando o Soberano da graça e a ele nos submetendo.

(Outro meio que Deus também usa é a paternidade. Como pais, passamos a entender melhor, ainda com absurda limitação, obviamente, o que significa corrigir a quem amamos e ainda amarmos aqueles a quem precisamos corrigir. Mas esse é assunto para um post.)

Deus é o iniciador de todas as coisas. Ele é o Rei da graça eterna! Entender a graça implica aceitar a soberania de Deus em nos chamar para si mesmo quando nem o reconhecíamos como Senhor. Veja como Charles Spurgeon (1834-1892), o Príncipe dos Pregadores, que viveu na Inglaterra do século 19, descreve seu primeiro vislumbre da graça:

Quando vim para Cristo, pensei que eu mesmo tivesse tomado a iniciativa e, embora buscasse o Senhor com diligência, não fazia nem idéia de que o Senhor estivesse me buscando. Não me parece que o novo convertido perceba isso de saída. Posso recordar o dia e a hora exatos em que pela primeira vez acolhi essas verdades [acerca da doutrina da eleição] em minha alma ―quando elas, como dizia John Bunyan, entraram queimando em meu coração como um ferro incandescente―, e posso lembrar que cresci repentinamente, deixando de ser um bebê para me tornar um homem ―cresci no meu conhecimento das Escrituras, tendo encontrado, de uma vez por todas, a chave da verdade de Deus.

Certa noite, no meio da semana, sentado na casa de Deus, lá estava eu, sem prestar muita atenção ao sermão pregado, uma vez que não cria no que estava sendo dito. Fui então assaltado pelo seguinte pensamento:

― O que o levou a se tornar cristão?

― Busquei ao Senhor.

― Mas o que o levou a buscar ao Senhor?

Num instante a verdade brilhou em minha mente: jamais o teria buscado caso não tivesse havido previamente algum tipo de influência sobre minha mente que me
fizesse buscá-lo.

― Orei ― foi o que pensei.

Mas então me perguntei:

― O que me levou a orar?

― Fui induzido a orar por meio da leitura das Escrituras.

― O que me levou a ler as Escrituras?

Realmente eu li, mas o que me levou a fazê-lo? Então, num instante, percebi que Deus subjazia a tudo aquilo, e era o Autor de minha fé. Assim a doutrina da graça se tornou clara para mim, e dessa doutrina não me afastei até o dia de hoje, desejando que seja sempre esta minha confissão: “Atribuo minha transformação inteiramente a Deus” (Verdades chamadas calvinistas, São Paulo, PES; tradução não-publicada feita por Fabiano Medeiros diretamente da citação feita por C. J. Mahaney em seu Sovereign grace and the glorious mystery of election [Graça soberana e o glorioso mistério da eleição]).

E, como diz o próprio Mahaney, no mesmo livrete acima citado: “‘Graça soberana’ naturalmente compreende muito mais que a doutrina da eleição. Refere-se a todos os atributos e atos graciosos de Deus, no que se relacionam ao todo da vida, pois todas as coisas estão debaixo do cuidado soberano, gracioso e atencioso de Deus. Nada que o homem faça para Deus jamais se reduz à realização humana. Trata-se da misericórdia, da bondade e da capacitação graciosa de Deus. “… O que você tem que não tenha recebido? E se o recebeu, por que se orgulha, como se assim não fosse?” (1Coríntios 4.7). Uma compreensão correta da graça sempre promoverá a humildade”.

Sim, a graça é soberana, pois o Deus de graça é um Deus de fato soberano, que reina sobre tudo e sobre todos. “Ou será que você despreza as riquezas da sua bondade, tolerância e paciência, não reconhecendo que a bondade de Deus o leva ao arrependimento?” (Romanos 2.4).

Parece que na hora da depredação do termo, há cristãos que ficam com “graça”, enquanto outros se concentram no “soberana”… Precisamos abraçar a graça sem legalismo, mas também sem permissividade. Por isso ela precisa ser simplesmente a paradoxal (e nunca contraditória!) “graça soberana”. Não uma graça que nos deixa à deriva, mas uma graça que nos encaminha. Não uma graça que nos coerge, mas amorosamente nos convence dos elevados caminhos do Pai e, como dizia o texto de Tito que citei acima, ela nos ensina a dizer “não” à impiedade.

Novamenteofereço um cântico que traduzi, desta vez da pena de Mark Altrogge, um dos maiores compositores atuais da graça que conheço. Ele diz, lindamente, em A sinner who loves grace [Um pecador que ama a graça], do álbum Love beyond degree.

Quem sou eu pra tocar-te?
Como posso, ó Deus, render-te
gratidão e amor por tua graça a mim?
Quem sou eu para ver-te?
Como posso, ó Pai, mostrar-te
gratidão e amor por tua graça ao pecador?

Amo tua graça que me atrai, fazendo meu pecado odiar.
Amo tua imensa graça, da vida o vigor.
Pra sempre triunfante será.

Amo tua graça, pois salvou-me, cada dia a me mudar.
A tua graça gera a fome em mim
de te amar e obedecer.

Graça soberana: o pleonasmo necessário

Acima fiz minha defesa (tentei!) a favor do uso de “graça soberana” para ainda sinalizarmos quem de fato está no controle, sem que esse controle desminta o caráter realmente gracioso da graça! Busquei também mostrar que licenciosidade e legalismo são conceitos espúrios à graça. Nesse sentido, “graça” e “soberana” não são elementos mutuamente excludentes… mas mutuamente explicativos. Precisam andar juntos!
No entanto, como Jerry Bridges expressou muito bem em uma de suas aulas do curso Graça e santificação (Pastors College, Sovereign Grace Ministries, 2005): “A graça como um todo é, por definição, ‘graça soberana’, uma vez que: 1) Deus tem a liberdade de concedê-la ou retê-la, 2) Deus não está obrigado a concedê-la e 3) Deus não nos deve coisa alguma”. Depois de citar Romanos 8.18 (“Considero que os nossos sofrimentos atuais não podem ser comparados com a glória que em nós será revelada”), ele continua:

Imagine uma balança. Um dos lados recebe a totalidade das agruras e sofrimentos que enfrentamos; o outro lado traz a recompensa. O lado da recompensa fica totalmente rebaixado. As recompensas de Deus a nós não se dão em proporção aos nossos sofrimentos. Suas recompensas para conosco são desproporcionais, porque são atos da graça soberana.

E, citando William Tyndale, ele conclui:

Tudo o que faço e sofro encaminha-se para a recompensa, mas não o merecimento
daquilo que faço ou sofro. Cristo é Senhor de todos, e o que quer que qualquer homem receba de Deus, deve receber livremente por causa de Cristo.

Embora essas afirmações mostrem a relativa superfluidade do adjetivo “soberana”, pois graça já é por definição soberana, precisamos desesperadamente, em virtude da desfiguração do entendimento sobre a graça em nossos dias, tão claramente sentida, por exemplo, em teologias que querem pôr Deus no bolso e exigir que ele aja sob pena de não ser mais crido ou adorado… precisamos desesperadamente recuperar o aspecto soberano da graça de Deus.

Graça soberana não é, portanto, um contrasenso! E, por força da diluição teológica do termo presenciada em nossos dias, não é também um pleonasmo!

Regozijemo-nos no Deus gracioso e misericordioso, que nos salvou pela graça, pela fé, mas para a prática das boas obras. “Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou antes para nós as praticarmos” (Efésios 2.10).

Para ressaltar o aspecto imerecido da graça, que justamente reflete a soberania de Deus, aqui vai minha tradução do hino contemporâneo de Mark AltroggeBob KauflinMercies anew, do álbum Upward, na linda voz de Shannon Harris.

Sempre ao despertar, tua mercê se refaz,
’té no meu respirar sei que és fiel e veraz.
E ao cessar meu labor, quando o dia findar,
vou tuas misericórdias cantar.

Se, perdido, errei, me alcançou teu amor
com tua graça contei: fez-se nova, Senhor.
Se em pecado eu cair, não me vais desprezar.
Vou tuas misericórdias cantar.

Não tem fim tua misericórdia, ó Deus.
Dura para sempre, bem sei.
Pode até do mundo o esplendor passar:
tua graça não mudará.

E no feroz temporal vou à graça correr;
na aflição e no mal sei que vais me valer.
E em meus dias finais, quando o céu contemplar,
vou tuas misericórdias cantar.

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