Graça Soberana

CENTRADOS NO EVANGELHO: reflexões cristocêntricas sobre a graça e as insondáveis riquezas do evangelho na vida de um desprezível pecador

Blogs: O relacionamento entre o “evangelho do reino” e o “evangelho da cruz” [Justin Taylor]

Don Carson resume da seguinte forma uma análise feita por Greg Gilbert sobre as diferentes maneiras em que o Novo Testamento emprega a palavra “evangelho” (gr., εὐαγγέλιον, “boas notícias”):

Gilbert defende que algumas passagens em que “evangelho” é empregado concentram-se na mensagem na qual alguém precisa crer para ser salvo, ao passo que outras passagens se concentram na mensagem da “boa notícia do cristianismo como um todo”. (Preferiria dizer algo assim: “toda a boa notícia daquilo que Deus fez em Cristo Jesus e consequentemente fará”.)

Essa primeira lista inclui, por exemplo, textos como Atos 10.36-43, Romanos 1.16,17 e 1Coríntios 1.17,18 e 15.1-5 — todas passagens que tratam do perdão dos pecados, de como ser salvo, de como alguém é justificado e assim por diante.

Isso corresponde a dois tipos de crentes, os quais gravitam em torno dessas diferentes formas de abordar o evangelho:

Na análise de Gilbert, um grupo de crentes que ele denomina grupo A defende com razão que “o evangelho é a boa notícia de que Deus está reconciliando pecadores consigo mesmo por meio da morte substitutiva de Cristo”.

O segundo grupo de crentes, que Gilbert denomina grupo B, está correto também em afirmar que “o evangelho é a boa notícia de que Deus renovará e reconstruirá o mundo todo por meio de Cristo”.

Esses dois grupos, afirma ele, têm a tendência de se sobrepor um ao outro quando expressam suas ideias:

Quando um crente do grupo A faz a pergunta “O que é o evangelho?” e ouve a resposta dada por alguém do grupo B, inevitavelmente essa pessoa do grupo A sente que a cruz ficou perdida em meio à apresentação do evangelho; quando um crente do grupo B faz a pergunta “O que é o evangelho?” e ouve a resposta dada por alguém do grupo A, inevitavelmente essa pessoa do grupo B sente que a resposta é individualista demais, muito restrita, sem ser norteada pela amplitude das expectativas teológicas e da esperança final.

Carson insiste em afirmar que não temos aqui dois evangelhos, mas um só evangelho visto de duas perspectivas:

O que Gilbert quer dizer é que, embora seja possível discernir dois pontos diferentes de concentração nos textos sobre o  “evangelho” — os dois relacionados à mensagem daquilo que Deus fez ou está fazendo, sendo um mais focado em Cristo e em sua cruz e em como as pessoas são salvas e o outro concentrando-se no tema mais amplo da restauração do novo céu e na nova terra —, não se trata de dois evangelhos diferentes e que competem entre si, dois evangelhos distinguíveis e complementares. Existe somente um evangelho de Jesus Cristo.

O foco mais restrito chama a atenção para Jesus — sua encarnação, sua morte e ressurreição, sua coroação e reinado — como aquele de quem são extraídos todos os elementos daquilo que Deus está realizando.

O foco mais amplo esboça as poderosas dimensões daquilo que Cristo conquistou e garantiu.

Carson então faz algumas aplicações:

No entanto, isso significa que, se alguém prega o evangelho no sentido mais amplo sem realçar o sentido mais focado daquilo que Deus fez para gerar essa transformação de tão amplas proporções, de fato essa pessoa está sacrificando o evangelho.

Pregar o evangelho como se isso equivalesse a pregar, digamos, as exigências do reino ou as características e promessas do reino, tanto agora quanto em sua inauguração e de forma definitiva em sua consumação, sem deixar claro o que é que garante o todo, não é na realidade pregar o evangelho, sendo apenas a anunciação de um moralismo enfadado e enfadonho. Talvez seja por isso que Paulo, ao falar sobre o que seja o evangelho, sente liberdade em identificar aquilo que mais importa: Cristo crucificado e ressurreto.

Isso conduz então a um debate sobre qual seja o cerne do evangelho:

O âmago do evangelho é o que Deus fez em Jesus, acima de tudo em sua morte e ressurreição. Ponto-final. Não é o testemunho pessoal sobre o nosso arrependimento; não são algumas poucas palavras sobre nossa resposta de fé; não é obediência; não é o mandado cultural ou qualquer outro mandado. O arrependimento, a fé e a obediência são naturalmente essenciais, e devem estar relacionados se levarmos a Escritura em consideração, mas não são a boa notícia.

O evangelho é a boa notícia sobre o que Deus fez. Por causa do que Deus fez em Cristo Jesus, o evangelho necessariamente inclui os benefícios que foram conquistados por Cristo e por sua obra na cruz. Dessa forma, tem uma dimensão presente e escatológica. Anunciamos o evangelho.

No livro What is the mission of the church? [Qual é a missão da igreja?], os autores, Gilbert e DeYoung, afirmam que podemos chamar a abordagem mais ampla de “evangelho do reino” — ou seja, “todo o complexo de promessas que Deus faz àqueles que são redimidos por Cristo”. O sentido mais restrito pode ser chamado “evangelho da cruz” — ou seja, “a mensagem de que pecadores podem ser perdoados por meio do arrependimento e da fé na morte reconciliatória de Jesus Cristo e em sua ressurreição”.

Gilbert e DeYoung sintetizam fazendo algumas aplicações e esclarecimentos:

Em primeiro lugar, há apenas um evangelho, e não dois.

Em segundo, o evangelho do reino necessariamente inclui o evangelho da cruz.

Em terceiro, e mais especificamente, o evangelho da cruz é a nascente do evangelho do reino.

Eles também explicam por que os autores do NT podem chamar o “evangelho da cruz” simplesmente de evangelho, aplicando o termo para todo o complexo da boa notícia.

Como as bênçãos mais amplas do evangelho são obtidas somente por meio do perdão que vem pela cruz e como essas bênçãos mais amplas são obtidas infalivelmente por meio do perdão que vem pela cruz, é totalmente cabível, fazendo total sentido, que os autores do Novo Testamento chamem de “evangelho” o perdão que brota pela cruz: nascente e comporta que deixa fluir todo o restante.

É também por isso que nunca vemos o Novo Testamento chamar de “evangelho” nenhuma outra promessa isolada da parte de Deus aos remidos. Por exemplo, nunca vemos a promessa da nova criação ser chamada de “evangelho”. Nem vemos a reconciliação entre os homens ser chamada de  “evangelho”. Mas com certeza vemos a reconciliação entre o homem e Deus ser chamada de “evangelho”, precisamente por ser aquela bênção por excelência que conduz a todas as outras.

Quando Gilbert e DeYoung apresentam as implicações de sua análise pelo aspecto do que o evangelho não é, temos aqui três resumos daquilo que devemos evitar em nossa formulação do evangelho:

1. É errado dizer que o evangelho é a declaração de que o reino de Deus já veio. O evangelho do reino é a declaração do reino de Deus junto com o meio de ingresso nesse reino.

2. É errado afirmar que a declaração de todas as bênçãos do reino é uma diluição do verdadeiro evangelho.

3. É errado afirmar que a mensagem de perdão dos pecados por meio da morte e da ressurreição de Jesus é uma redução do verdadeiro evangelho.

Recomendo todo o artigo de Carson, bem como o útil capítulo do livro de Gilbert e DeYoung.

Justin Taylor é autor do blog Between Two Worlds desde setembro de 2004 e trabalha para a editora Crossway, em Wheaton, EUA, desde 2006. Trabalhou anteriormente para o ministério Desiring God, em Minneapolis. Foi presbítero na New Covenant Bible Church, em St Charles, EUA, desde 2010. Vive com a esposa e três filhos na região metropolitana de Chicago.

Título: O relacionamento entre o “evangelho do reino” e o “evangelho da cruz”. Autor: Justin Taylor. Série: Blogs. Tradução: Graça Soberana/Fabiano Medeiros.

Copyright © 2012 de Just Taylor, © 2012 de Graça Soberana. Você pode ler o original aqui.

Solus Christus, sola gratia, sola fide, sola Scriptura, soli Deo gloria!

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Publicado em 10 de setembro de 2012 por em Graça soberana.

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