Graça Soberana

CENTRADOS NO EVANGELHO: reflexões cristocêntricas sobre a graça e as insondáveis riquezas do evangelho na vida de um desprezível pecador

Blogs: O que é o Evangelho exatamente? [Jeff Purswell]

Um dia desses eu travava uma longa e diversificada conversa com um amigo, quando nos deparamos com o tema do Evangelho. Observei de passagem que a palavra “evangelho” vem muitas vezes carregada de elementos que pertencem mais precisamente ao campo do discipulado ou da ética — p. ex., o que fazemos em resposta ao Evangelho ou de que maneira vivemos à luz do Evangelho.

Meu amigo então reagiu da seguinte maneira, perplexo: “Mas essas coisas não fazem parte do Evangelho? Jesus não disse na Grande Comissão ‘ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei’?”.

O que se seguiu foi uma animada e edificante conversa em que nos descobrimos em harmonia em muitos assuntos, mas aquela também foi uma conversa em que veio à tona uma questão de fundamental importância: o que é o evangelho exatamente?

Talvez não seja muito sábio tratar de uma questão como essa em uma mídia que milita contra o detalhamento e a clareza formular. Sem dúvida alguma, meus comentários serão dissecados, e muitos dos que perceberão a falta desse ou daquele tema ou ênfase bíblicos concluirão que esses comentários deixam a desejar… ah, bem… mas aí está o prazer de blogar. A tal questão, no entanto, acha-se no cerne da nossa fé e, assim, no âmago do ministério pastoral.

Então o que é que o Novo Testamento apresenta como Evangelho?

O Evangelho de Marcos é um bom lugar para começarmos. Já no início do livro, o autor de imediato nos alerta sobre a importância daquilo que se seguirá: “Princípio do evangelho de Jesus Cristo, o Filho de Deus” (Marcos 1.1). Do ponto de vista sintático, essa abertura flui diretamente para o restante do prólogo (a profecia de Isaías, João Batista e batismo/tentações de Jesus), o que mostra que esses acontecimentos introdutórios são o “Princípio do evangelho”, ao passo que a parte seguinte da narrativa de Marcos apresenta o restante do Evangelho.

Mas o que isso significa? Para Marcos, o Evangelho é a história sobre Jesus: as boas-novas de tudo o que Jesus realizou em sua vida, ministério, morte e ressurreição.

Vemos ideia semelhante nas primeiras pregações da igreja. Quando Pedro é convocado para ir à casa de Cornélio e descobre que Deus está por trás dessa cadeia milagrosa de acontecimentos, sua apresentação do Evangelho (“que fala das boas novas de paz” — Atos 10.36b) é um esboço do ministério de Jesus, começando com João Batista e seguindo até sua ressurreição e posterior comissionamento dos discípulos para que proclamassem perdão em seu nome (Atos 10.36-41; cf. 2.22-24; 3.13-15). Vários comentaristas, começando por C. H. Dodd, entenderam que esse se tratava de um resumo da pregação apostólica e observaram que estava em fundamental harmonia com a estrutura do Evangelho de Marcos. Mais uma vez, o Evangelho é a boa-nova do que Deus estava fazendo por meio de Jesus em sua vida, morte e ressurreição.

Paulo emprega o termo “evangelho” mais que qualquer outro autor do Novo Testamento. E, naturalmente, uma das apresentações mais conhecidas do “Evangelho” no Novo Testamento é o resumo de Paulo em 1Coríntios 15.1ss: “Irmãos, quero lembrar-lhes o evangelho que lhes preguei […]. Pois o que primeiramente lhes transmiti foi o que recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou no terceiro dia, segundo as Escrituras…”. De novo, o Evangelho consiste naquilo que Jesus fez para nos salvar. A apresentação de Paulo é mais restrita, focando-se no ápice da obra de Cristo — sua morte substitutiva e sua ressurreição —, mas esse foco está também embutido nas próprias estruturas dos Evangelhos canônicos, os quais reservam muito mais espaço para a morte e a ressurreição de Jesus, assim depositando nesses acontecimentos sua maior ênfase.

Então o que é o Evangelho?

Embora este breve apanhado esteja longe de completo, ele revela sistematicamente que o Evangelho é a boa notícia a respeito de Jesus e do que ele fez para conquistar a salvação para os pecadores.

Em outras palavras, o Evangelho é objetivo. Ele mostra o que Deus fez para salvar o seu povo. Consiste em fatos concretos e históricos, enraizados nas promessas, nos tipos e nas instituições do Antigo Testamento cumpridos em Jesus. Ele promete que todos os que confiam em Cristo e em sua obra receberão perdão e vida. Naturalmente, não se trata apenas de uma lista de acontecimentos de interesse meramente histórico; tudo tem enormes implicações para a nossa vida. Mas não podemos confundir a mensagem do Evangelho em si com o desenrolar dessas implicações.

Então, por exemplo, embora o Evangelho me chame para responder ao que Jesus fez, estritamente falando ele não inclui minha resposta — arrependimento não é Evangelho. Embora o Evangelho me apresente uma vida vivida em alegre obediência a Deus, estritamente falando ele não inclui essa vida de obediência. Nossa existência como cristãos envolve privilégios indizíveis, responsabilidades significantes e promessas  inefáveis. Mas essas coisas não são em si o Evangelho.

Por que tudo isso é importante? É importante porque a própria natureza do Evangelho está em jogo — e não há prioridade maior para o pastor do que impedir que o Evangelho seja negligenciado, distorcido ou redefinido (1Timóteo 6.20; 2Timóteo 1.14).

Se o Evangelho for ampliado a ponto de incluir o “discipulado no reino”, então a natureza objetiva da obra de Cristo é minimizada. Quando o Evangelho é redefinido como um chamado à ação social ou política, a obra de Cristo é substituída pela nossa. Quando o Evangelho inclui minha resposta, a base da minha segurança repousa em mim e não em Cristo. Na realidade, toda vez que deixamos de definir o Evangelho como a realização objetiva de Deus e passamos a defini-lo como a nossa apropriação subjetiva, o fundamento sólido da nossa fé é deslocado — e a glória de Deus no evangelho é anuviada.

Sem dúvida alguma, podemos ser claros a respeito da mensagem do Evangelho, e ainda assim cometer outros equívocos. Podemos negligenciar as implicações do Evangelho (uma vida de abnegação e de obediência a Cristo). Podemos nos focar somente na salvação espiritual, excluindo assim qualquer preocupação com o bem-estar físico ou material das pessoas. Podemos de tal modo nos focar no lar celeste, que negligenciamos nossas responsabilidades de amar as pessoas em um mundo caído, assim como negligenciamos o fato de que o futuro em última análise acha-se em “novos céus e nova terra” que foram plenamente renovados pelo poder de Deus.

Nenhum desses equívocos, porém, minimiza a importância de nos agarrarmos ao Evangelho da nossa salvação. Pois é pelo poder do Evangelho que somos transformados para viver a vida pelo poder do Espírito. É pelo Evangelho que somos libertos do egoísmo para entregar a vida a serviço do outro. Com toda a certeza, o alcance da redenção de Cristo abrange todo o cosmo (Colossenses 1.20), mas no centro dessa preocupação redentora estão os rebeldes portadores da imagem de Deus que ele está resgatando para serem seus filhos. Mas essas implicações, desdobramentos e promessas são todos alicerçados na realização imutável e sólida de Deus por meio do Evangelho de seu Filho. É essa mensagem que é o poder de Deus para salvar pecadores, consolar os desalentados, motivar os combalidos, encorajar os abatidos, dar segurança aos que se sentem dominados pela culpa.

Essa mensagem nunca muda; essa mensagem é sempre verdadeira; e por isso nossa esperança é sempre firme.

E é precisamente quando esses rebeldes terrenos captam a realização de Deus contida no Evangelho — a grande demonstração da “largura, [d]o comprimento, [d]a altura e [d]a profundidade […d]o amor de Cristo” — que eles serão “cheios de toda a plenitude de Deus” (Efésios 3.17-19) e se maravilharão com a demonstração que o Evangelho faz da gloriosa graça de Deus.

Jeff Purswell serve como Deão no Pastors College [Escola de Pastoras] de Sovereign Grace Ministries e é pastor da igreja Covenant Life, em Gaithersburg, Maryland, EUA.

Título: O que é o Evangelho exatamente? Autor: Jeff Purswell. Série: Blogs. Tradução: Graça Soberana/Fabiano Medeiros.

Copyright © 2009 de Jeff Purswell, © 2012 de Graça Soberana. Você pode ler o original aqui.

Solus Christus, sola gratia, sola fide, sola Scriptura, soli Deo gloria!

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