Graça Soberana

CENTRADOS NO EVANGELHO: reflexões cristocêntricas sobre a graça e as insondáveis riquezas do evangelho na vida de um desprezível pecador

Por que eu apoio os novos reformados

Neste e nos próximos posts, quero fazer coro a Helder Nozima, Filipe Niel e Juan de Paula a respeito da nossa necessidade de 1) entender melhor o movimento neorreformado, 2) assentar seus alicerces no Brasil, 3) encontrar nossa vertente brasileira, 4) promover unidade e união para engrandecimento do Evangelho da Graça e 5) nos cercar do apoio dos nossos inestimáveis irmãos reformados, de quem herdamos nossas convicções mais caras a respeito da Palavra de Deus e do Evangelho.

Aqui explico meu apoio. E peço sua permissão para fazê-lo narrando brevemente meu testemunho. Nos posts seguintes, quero 1) refletir um pouco sobre o que define os contornos do movimento e 2) pensar junto com nossos irmãos acima e com você que me lê sobre os passos que podemos e devemos tomar para ver a disseminação das velhas verdades bíblicas da Reforma.

Nasci e fui criado em uma igreja arminiana e pentecostal. Quinze anos me viram por aqueles arraiais! Aprendi muito sobre Deus e muito me inspirei pela paixão de nossos irmãos, mas sofri muito com a licenciosidade. Eu ansiava desesperadamente encontrar a fórmula da vida santificada. Entre aqueles meus irmãos arminianos e pentecostais, embora houvesse uma considerável dose de legalismo mais enrustido, havia, sobretudo entre os jovens, a tendência à vida dupla, isso quando não se convivia com o pecado na própria igreja sem que jamais se confrontasse amorosamente o pecador. Os jovens amavam a Deus e queriam viver para ele, mas não tinham recebido os nutrientes, as vitaminas da Palavra que seriam capazes de fortacê-los e os conduzir para mais perto de Deus. E mais triste ainda: não conheciam o Evangelho que salva, jsutifica, santifica e preserva até a glorificação! Não conheciam, isso mesmo! Era um evangelho no mínimo nebuloso, já com os embriões do que mais tarde se desenvolveria no neopentecostalismo, em que a cura, a libertação, as experiências e as benesses eram vistas como prova do favor divino e eram mais buscadas que o próprio Doador dessas dádivas. As Escrituras não eram autoridade inquestionável, e havia padrões secundários, como a tradição, os dons sobrenaturais confusos e dissensiosos, o emocionalismo, o subjetivismo e o mundo, com a sua cultura! Uma igreja que já namorava com o materialismo, com o feminismo, com o relativismo…

Os outros 15 anos me encontraram numa segunda denominação, para a qual fugi. Saídos da tradição reformada, tendo renegado a Reforma e tendo-se renovado carismaticamente, esses irmãos abraçaram um tipo diferente de arminianismo, com resquícios calvinistas, eu diria, e, no aspecto da obra do Espírito, rejeitaram as teorias e práticas de pentecostais e renovados (carismáticos), respectivamente conhecidas como a segunda e a terceira ondas da obra do Espírito. Mas havia nesse grupo um legalismo sufocante, um combate quase perfeccionista ao mundo e à carne, um isolacionismo mesmo das demais denominações do arraial evangélico e um exclusivismo que os fazia arrogar a si o status de única e verdadeira obra do Espírito nos dias de hoje, sobre a face da terra, em meio à corrupção da “igreja evangélica apóstata”.

No começo, fiquei feliz de ter encontrado a igreja perfeita, as pessoas perfeitas, um cristianismo sério. Mas nesses 15 anos de legalismo, eu continuava vivendo uma vida sem transformação genuína e sem amor a Deus. Embora eu o amasse, embora eu me culpasse o tempo todo pelos pecados cometidos, eu vivia mais em condenação que em arrependimento genuíno. E transformação, que era bom, nada! Não havia entendimento, não havia paixão, não havia comprometimento, não havia uma real acolhida do preço do discipulado. E de novo o Evangelho era anuviado e se mostrava ainda mais confuso e obscuro, à medida que reinava a justiça própria, o orgulho espiritual, a condenação, a imposição de cercas humanas, a criação de exigências que o próprio Deus não fazia, uma espécie de farisaísmo e uma religiosidade da pior espécie. E o legalismo se mostrou para mim tão pernicioso quanto a licenciosidade.

Deus permitiu que por 30 anos eu experimentasse os inimigos do Evangelho, para só então eu começar a compreender e viver o Evangelho e a Graça! Nesses quinze anos no legalismo, numa espécie de conta-gotas gracioso e soberano, Deus foi  me distilando doses homeopáticas de um vislumbre mais cristalino do Evangelho. (Sim, eu sou lento, e Deus é maravilhosamente bondoso!) Em quatro momentos desse período — primeiro, em 1990, depois de 1992 a 1996, depois ainda entre 1997 e 1998 e por fim de 2000 a 2002 —, por quatro vezes Deus enviou instrumentos de sua graça ao meu caminho. Primeiro, em 1990, trabalhando como tradutor do Exército de Salvação, uma denominação arminiana, foi um artigo passado a mim pela minha grande amiga Marcia Barrios (hoje minha amantíssima esposa e reformada como eu). Nesse artigo, eu encontrei pela primeira vez uma alternativa à visão arminiana da salvação que eu aprendera desde sempre. A inquietação e a dúvida se instauraram nesse momento em meu coração. De 1992 a 1996, Deus me pôs ao lado de um ilustrador e capista de Edições Vida Nova chamado Íbis Roxane, batista que amava a Deus e muito me ensinou a respeito da segurança da salvação. Entre 1997 e 1998, já trabalhando para a Editora Vida, Deus me colocou ao lado de uma grande amiga, Rosana Brandão Ihara, também batista, que me falava do maravilhoso mistério bíblico do paradoxo entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana. E, de 2000 a 2002, Deus mandou Aldo Menezes para a Editora Vida, que me apresentou Agostinho e começou a erodir minhas defesas contra as verdades grandiosas do Evangelho, verdades essas que Deus começou a me mostrar desde 1990 e que faziam frente às minhas experiências de licenciosidade e legalismo e se apresentavam como a resposta de Deus aos meus mais profundos anseios de santidade e verdade. Aldo Menezes me entregou pela providência divina às mãos de Rogério Portella, professor paciente e seguro da fé reformada que me discipulou no be-a-abá da Reforma, rechaçando cada uma das minhas objeções e construindo pela misericórdia de Deus um alicerce para a fé nas verdades sempiternas da Palavra que por anos me haviam sido suprimidas e distorcidas. Aldo e Rogério, sendo ex-testemunhas-de-jeová, foram também instrumentos de Deus, ajudando-me a obter forças para deixar uma denominação exclusivista e sectária, cujo legalismo e orgulho espiritual plantaram no meu coração o temor de homens, o medo de abandoná-los, mas não o verdadeiro temor a Deus.

Agora convicto da minha nova descoberta do velho e verdadeiro Evangelho, minha grande luta era ter de aceitar um pensamento reformado cessacionista. Eu era carismático! Mas Deus tinha mais surpresas para mim. Em 2002 assumi a gerência do departamento editorial da Editora Vida, o que me levou em junho daquele ano a uma feira de livros cristãos chamada CBA, em Annaheim, na Califórnia. Através de meu então colega de trabalho, o diretor de marketing da Editora Vida Sérgio Pavarini, conheci em Pasadena, na Califórnia, sua amiga Renata Costa, que morava na época com os Andersons, uma família de uma das igrejas dos Sovereign Grace Ministries.

Deus me concedeu um só dia com John Anderson, o chefe daquela família, alguém que amava o Brasil e falava português, para descobrir que existiam reformados que não subscreviam a posição cessacionista em relação aos dons do Espírito e aos milagres. E ali, nas doces conversas daquele dia, descobri as primeiras verdades do que depois se me afigurou como o movimento neorreformado. Em fevereiro de 2002, eu rompera com a minha denominação arminiana e pentecostal e em junho do mesmo ano, buscando de Deus respostas sobre como conciliar minha dimensão carismática com a nova fé reformada, Deus me levou naquele encontro em Pasadena a uma amizade que se entende e frutifica até hoje com a família de igrejas conhecida como Sovereign Grace Ministries.

Foi nesse relacionamento que aprendi e vivenciei: a centralidade do evangelho, a soberania de Deus, a centralidade de Cristo, a inestimável operação do Espírito no meio da igreja não para dividir e causar confusão, mas sobretudo para exaltar a Cristo e nos santificar, a humildade no viver cristão, a prestação de contas, o meu papel como homem e cabeça na igreja, na família e na sociedade, o valor da pregação expositiva, a importância da teologia bíblica, a bênção da comunhão no pastoreio dos grupos pequenos e uma infinidade de valores e práticas que brotavam da visão reformada das Escrituras e assentaram no meu coração o anseio de ver propagada no Brasil também a fé neorreformada. E não só aprendi tudo isso com eles e o vivenciei no meio deles, mas tive de Deus a bendita oportunidade de abrir a Palavra ao longo de todos esse últimos anos da minha vida e, como os bereianos, verificar tudo o que me foi ensinado, além de ler acompanhar o que Deus tem falado por meio de homens e mulheres que ele tem usado em livros e de blogs como este. E é por isso que hoje declaro meu compromisso de dar as mãos a Helder, Filipe, Juan e a incontáveis outros que conheço ou virei a conhecer, os quais Deus tem levantado hoje para ser sal e luz em meio a um evangelicalismo perdido e um mundo corrompido pelo pecado e assim defender as velhas verdades do Evangelho consubstanciadas nas convicções reformadas e neorreformadas!

Leia meu post seguinte para conhecer um pouco mais sobre os contornos no movimento neorreformado, na minha singela opinião. Quem sabe você é um dos nossos…

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17 comentários em “Por que eu apoio os novos reformados

  1. Sergio Menga
    17 de março de 2011

    Como é gostoso ouvir o que o Senhor Deus fez e continua fazendo na vida dos Seus. Vejo com grande alegria, que as verdades centrais das Escrituras, aquelas que costumamos chamar de doutrinas reformadas, está sendo abraçada com paixão, principalmente por uma nova geração, por jovens em todo o Brasil.

    Quando fui graciosamente confrontado com essas mesmas doutrinas, as doutrinas da graça, e onde me encontrei com um Deus absolutamente soberano e que decretou tudo o que me diz respeito, eramos heréticos, traidores de tudo o que tínhamos aprendido, retrógrados, deterministas, e apáticos para as necessidades do mundo. Talvez não muito diferente de hoje.

    O que se vê hoje, é que a Verdade está prevalecendo para a glória de Deus.

    Não me identifico como um calvinista, pois não acredito nesse rótulo. Costumo dizer que nem mesmo Calvino o era. Talvez nem seja um neocalvinista, pela idade! Nem mesmo um reformado, pois sou apenas um dos herdeiros dos reformadores. Gosto muito de me identificar como um “soberanista”, assim como é revelado o Senhor Deus, pelas Escrituras, e assim como era o cerne dos ensinos e das convicções de Calvino.

    Amo encontrar e conhecer irmãos que creem neste Deus Soberano sobre tudo e sobre todos. Que creem que é de Deus a salvação em Cristo e por Cristo Jesus, por meio da pregação pura, da Palavra pura. E em razão desta, transformar o coração de pedra em um coração de carne, pela livre ação do Espírito Santo, que A aplica. E tudo isso pela soberana e amorosa graça de Deus, que passa por cima da vontade morta e corrompida do homem.

    Sou mais um também.

    Um forte abração,
    Pr. Menga

    • Fá Medeiros
      20 de março de 2011

      Pr. Sérgio, é um prazer ter sua participação aqui. E que bom que o Senhor nos uniu para a sua glória. Sei que ainda vou aprender muito contigo.

      Conte comigo, vc sabe…

      Deus abençoe!

  2. Filipe Niel
    17 de março de 2011

    Os poucos dias que pude estar em sua presença pude perceber seu amor e temor por nosso Deus. Me espelho bastante em você.

    Que Deus te abençoe,

    Filipe

    • Fá Medeiros
      20 de março de 2011

      Filipe, cara, eu não mereço mesmo ouvir isso… Agradeço seu encorajamento.

      Engraçado que saí daquele nosso encontro em Niterói sentido o mesmo a seu respeito. Deus continue a te abençoar e usar!!

  3. Alexandre Mendes
    17 de março de 2011

    Fico feliz de ver o desejo de união crescer na Igreja [de fala portuguesa]. Bendita união em torno do Evangelho puro e simples. Que Deus levante mais homens dispostos a viver essa realidade…

    Abraço,

    • Fá Medeiros
      20 de março de 2011

      Amém, Alexandre! Uno-me a vc em oração.

      Deus te abençoe ricamente!

  4. Juan de Paula
    17 de março de 2011

    Deus continue guiando seus passos para ter crenças e vida balizadas pela Bíblia Sagrada.

    Abração brow,
    Juan

    • Fá Medeiros
      20 de março de 2011

      Obrigado, Juan! A nossa união certamente nos ajudará a sermos preservados do erro! Deus te abençoe.

  5. Helder Nozima
    17 de março de 2011

    Fabiano,

    Obrigado pelo apoio dado…não a mim, mas ao Evangelho de Cristo. Espero que você possa ser uma bênção na vida de muitos, assim como Deus usou várias pessoas para trazê-lo até onde você chegou.

    Graça e paz do Senhor,

    Helder Nozima
    Barro nas mãos do Oleiro

    • Fá Medeiros
      20 de março de 2011

      Helder, obrigado! Cara, vc foi uma bênção de Deus na minha vida! E sei que Deus te usou para começar a mexer gente que já tnha o coração ardendo e não sabia direito o que fazer nem por onde começar…

  6. Maicon
    17 de março de 2011

    Ótimo blog. Ótimo texto.
    Novos reformados (ou calvinistas) não são mais uma onda, creio que somos o princípio de um mover de Deus para que exista um real avivamento bíblico no Brasil!

    Que sejamos missionais, amantes da doutrina, das almas e principalmente de Jesus…

    Abração

    Vamos lutar pela nossa causa

    • Fá Medeiros
      20 de março de 2011

      Isso mesmo, Maicon!

      Não creio que seja uma moda mesmo. Ao contrário, é um retorno às veredas antigas. E que Jesus seja o centro!!

      Deus abençoe!

  7. Pingback: Novos reformados: quem são e o que representam « graça soberana

  8. Íbis Roxane
    24 de março de 2011

    Fá Medeiros, meu irmão!!

    Que maravilha é essa que Deus fez com você! Ao ler o seu testemunho e ver como Deus foi trabalhando e transformando sua cosmovisão a respeito da Fé, exultei de alegria.
    Como Deus tem sido longânimo conosco! Que coisa !
    Minha oração é que você brilhe ainda cada vez e muito mais neste meravilhoso processo da santificação que segue o ato de ser declarado judicialmente santo no Amado.
    Um grande abraço a você e sua família.
    Íbis Roxane

    • Fá Medeiros
      24 de março de 2011

      Meu grande amigo Íbis!! Como vai e como vai a família!?

      Que gratíssima surpresa tê-lo aqui! Confesso que não esperava. Estou de volta às Edições Vida Nova e outro dia ainda perguntei ao nosso querido Valdo por ti. Que coisa incrível!

      Rapaz, vc marcou a minha vida, a minha jornada de fé. Foi uma das primeiras pessoas fora daquele meu círculo fechado e legalista que me falou com tanta paixão sobre Deus, e eu sou muito, mas muito agradecido a Deus por ter te usado para começar a abrir os meus olhos para a própria Palavra.

      Quem sabe um dia nos encontramos. Estou de volta a SP. Não vou te mandar meu email aqui, mas escreva ou ligue para a Vida Nova e trocamos emails.

      Deus os abençoe! Aguardo notícias!!

  9. Rafael de Souza Filgueira
    30 de dezembro de 2011

    Oi.
    Muito honesto seu testemunho, foi de grande valia pra mim, pois tenho enfrentado ao
    longo do já quase findo ano de 2011 siuação parecida. Sou membro de uma igreja que
    nega os principais postulados da fé reformada, mas mesmo assim o meu interesse pela
    mesma tem crescido grandemente e através do estudo diligente da bíblia aliado a oração
    tenho averiguado a veracidade destes ensinos. Acredito que o Espírito da Graça con-
    tinuará a nos dirigir nessa caminhada de discípulo do Grande Mestre no rumo da verdade.

    Que Deus coninue a te iluminar na senda da verdade com amor !

    Graça, paz e misericórdia em Cristo,

    Rafael Filgueira.

    • Fá Medeiros
      9 de julho de 2012

      Amém! Espero que Deus continue a te dar sabedoria! Grande abraço. Na Graça maravilhosa do Salvador, FM.

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Informação

Publicado em 17 de março de 2011 por em C J Mahaney, Centralidade do evangelho, Evangelho, Graça, Graça soberana.
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