Graça Soberana

CENTRADOS NO EVANGELHO: reflexões cristocêntricas sobre a graça e as insondáveis riquezas do evangelho na vida de um desprezível pecador

Estudos: A Palavra que nos basta [Fabiano Medeiros]

Uma mensagem em 2Timóteo 3.14-17

Introdução

Nesta série de quatro mensagens, em que estamos explorando os alicerces, o que há de mais básico para a nossa vida como cristãos, 1) Deus e sua glória, 2) a Palavra, 3) nossa postura diante de Deus e de sua Palavra e a 4) proclamação da Palavra, já ouvimos domingo passado a exposição do texto de Romanos 11.33-36, em que ele apresentou um entendimento bíblico a respeito da glória de Deus e do nosso chamado para glorificá-lo.

Hoje seremos relembrados uma vez mais sobre a importância da Palavra de Deus.

Gostaria de abrir esta mensagem hoje propondo algumas perguntas que, espero, vão acompanhá-lo por toda a mensagem e vão ajudá-lo na compreensão do texto que vamos ler nesta noite.

Em primeiro lugar, tenha em mente uma bula! Isso, uma bula de remédio!  A bula traz tudo sobre o remédio cuja eficácia ela busca defender. Ela mostra a essência do remédio, suas características, em que formas se apresenta, para que serve, como deve ser aplicado e o que não podemos fazer com ele. Não é assim? Mas a pergunta é: “Quantas vezes de fato sentimos que a tal bula não apenas tem tudo o que precisamos saber para o uso adequado do medicamento, mas é também útil para nós?”. Então fica a pergunta: “Qual a utilidade de uma bula de remédio?”. Não estamos contestando sua autoridade, sua confiabilidade, sua clareza (se é que a gente pode dizer que bula de remédio é clara), sua inerrância (ela foi passada por um rigoroso processo de revisão textual e técnica), sua infalibilidade (ela não nos deixa na mão quando a gente precisa). Mas estou perguntando a você: “Você lê bula de remédio? ela é útil?”.

Qual a utilidade de um manual de instruções de uma cafeteira ou de uma furadeira? Não traz esse manual os mesmos elementos: descrição técnica, modelo, cor, características, funções, objetivo, modo de uso e instruções a respeito de mau uso também? Agora eu pergunto, quem de nós, que compre ou ganhe uma cafeteira ou uma furadeira deixa aquele aparelho novinho, reluzente, sem nenhum risquinho e sem nenhuma mancha, repousar dentro da caixa e, antes de começar a usá-lo, senta-se confortavelmente no sofá da sala, abre uma latinha de coca e lê prazerosamente o manual de instruções… caneta em punho, sublinhando e anotando nas margens as palavras ATENÇÃO… IMPORTANTE? Quem? (E sei que há uns poucos indivíduos neste mundo que fazem isso… Eu não sou um deles!) Para a maioria de nós, qual é a utilidade desse manual de instruções? De novo aqui, sabemos de sua autoridade, de sua confiabilidade, de sua clareza (espera-se), de sua inerrância e infalibilidade, mas… ele é útil? Ele é aplicável? Ele é relevante? Ele me basta? Ou eu prefiro chamar a vizinha que tem uma cafeteira igual e deixar que ela me demonstre seu melhor uso? Ou será que prefiro comparar com a cafeteira antiga que eu tinha e que quebrou (talvez porque eu também no primeiro caso não quis ler o manual…)? Ou será que eu vou pensar que minha capacidade lógica e minha intuição serão o bastante para eu navegar o difícil processo de passar um cafezinho na minha nova cafeteira? Aquele manual é útil? Ele me basta?

Lançadas as perguntas da nossa ilustração inicial, leia comigo o texto de 2Timóteo 3.14-17, e tente imaginar e sentir a solenidade com que Paulo profere essas palavras ao jovem líder cristão:

Quanto a você, porém, permaneça nas coisas que aprendeu e das quais tem convicção, pois você sabe de quem o aprendeu. 15Porque desde criança você conhece as Sagradas Letras, que são capazes de torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus. 16Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, 17para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra (2Tm 3.14-17).

Contexto

Por que Paulo estaria gastando seu tempo para relembrar a Timóteo, que desde a infância conhece as Sagradas Letras, a respeito da confiabilidade, da autoridade, da função, da capacidade e da utilidade da Palavra de Deus? Tão logo Timóteo! … o jovem presbítero em quem, apesar de jovem, Paulo havia confiado para que permanecesse em Éfeso a fim de ordenar aos falsos mestres naquela cidade que se calassem e fossem proibidos de ensinar doutrinas falsas!! Timóteo, a quem ele chama no começo de sua carta de “meu verdadeiro filho na fé” e ao encerrar a mesma carta o chama de “homem de Deus”? Aquele Timóteo que, segundo Paulo, recebera “o dom […] por mensagem profética com imposição de mãos dos presbíteros”? Sobre quem Paulo até mesmo escreve aos filipenses prometendo enviá-lo, com as palavras que lemos em Filipenses 2.20: “Não tenho ninguém que, como ele, tenha interesse sincero pelo bem-estar de vocês”. Que curioso Paulo querer agora ensinar o “padre-nosso ao vigário”!! Que despropósito!! Que vergonhoso até!!

Mas Paulo sabia da necessidade dessa relembrança. Paulo conhecia os falsos mestres de Éfeso, cristãos professos, mas homens que procuravam desvirtuar a igreja do seu Caminho. Homens como Himeneu e Alexandre. Paulo sabia como aquele igreja precisava de renovadas instruções acerca do culto de adoração, por exemplo, em que começavam a se infiltrar elementos estranhos. Paulo sabia que homens sem as qualificações bíblicas poderiam ser designados presbíteros e diáconos. Paulo sabia do mau tratamento que estava sendo dispensado aos idosos, às viúvas, a negligência com membros da família. Paulo sabia que os líderes mais esforçados e dedicados, gastando horas de seu dia para a igreja, estavam sendo negligenciados financeiramente. Sabia também que líderes em pecado estavam sendo às vezes acobertados nas suas mazelas. Paulo sabia também daqueles que viviam e serviam mais por amor ao dinheiro que por amor e zelo pela causa. Paulo conhecia as conversas inúteis e profanas que a igreja travava.

Paulo sabia que a Palavra de Deus tinha se tornado para eles uma bula de remédio. E temos aqui uma igreja que, como aquela da carta aos Hebreus, de que falamos quarta passada, era relativamente jovem! Para uma igreja que acabara de nascer, a Palavra poderia já ter-se tornado um manual de instruções a qual não valia a pena gastar tempo lendo? Que triste! Como sabemos tudo isso? Basta lermos na íntegra essa segunda carta a Timóteo. Que situação tem o jovem pastor em suas mãos! Que desespero! Quanta coragem lhe será necessária! Quanta fé!!

Parece que podemos ver Paulo escrevendo também  com o coração na mão, esta que seria sua última carta! Paulo está acorrentado numa fria masmorra romana aguardando seu fim, a sentença que o condenará à morte, encarcerado como um preso comum. Então ele precisa relembrar Timóteo das velhas verdades: guardar o evangelho, perseverar na fé, agarrar-se à Palavra e continuar pregando-a, e até mesmo sofrer pelo evangelho. É nesta carta que ele lembra Timóteo do que mais importa. Paulo não está preocupado em ensinar alguma novidade, alguma nova moda, ele se concentra no evangelho pelo qual havia gasto sua vida.

Vejam que sempre precisamos ser relembrados das mesmas velhas verdades do evangelho. Paulo, escrevendo a Timóteo, um presbítero em Éfeso, no mesmo texto em que diz que ele, desde a infância conhece as Sagradas Letras que são capazes de torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus, não deixa também de relembrá-lo da essência da Escritura e do que ela cumpre em sua vida. Se você nasceu na igreja, como eu, sabe como é fácil nos familiarizarmos e nos acomodarmos com o que achamos que sabemos, mas já não opera vida em nós. Se você conhece a Deus há mais de 10 anos, eu arriscaria dizer que também já caiu nas mesmas tentações ao longo da caminhada. Se você é novo na fé, como aquela nova igreja em Éfeso, você também não está isento de banalizar a mensagem que ontem tinha enchido o seu coração e o tinha feito saltar e pular de alegria, e sair pregando de Cristo nas praças, nos ônibus, nos presídios, nos hospitais, para o seu colega de classe, para o seu colega de trabalho! Individualmente, não somos diferentes de Timóteo: precisamos ser relembrados. E, como igreja, não somos diferentes da igreja de Éfeso: corremos o risco de também deixar que qualquer coisa tome a primazia da Palavra de Deus em nossas crenças e prática.

Timóteo, agora, diante de tudo o que lhe está proposto, precisa crer não somente na autoridade, na confiabilidade e na inerrância das Escrituras, mas no poder, na capacidade, na utilidade, na relevância da Palavra de Deus para aprumar todas essas coisas, para dar sentido e direção. Timóteo estava sendo preparado para toda boa obra, como você hoje, ainda que você não tenha uma igreja em suas mãos, ainda que você ache que não tem nenhum serviço importante a fazer na casa de Deus. Saiba de uma coisa: Deus o chamou para toda boa obra. Por quê? Pelo simples fato de que você é homem de Deus, mulher de Deus. Deus o chamou para obras, para dar frutos, para desenvolver sua salvação com temor e tremor, para servir, para encorajar, para ser uma parte ativa do corpo de Cristo, seja com sua interecessão, seja varrendo o auditório, seja recolhendo um lixo do banheiro, seja ensinando seu filho em casa para que ele reflita o evangelho fora de casa, seja auxiliando e liberando seu marido para que ele compareça na atividade da igreja que está sob sua responsabilidade, seja você como homem deduzindo tempo de seu trabalho para se dedicar à esposa e aos filhos, seja chegando mais cedo no prédio da igreja para saber se alguém precisa de você, seja saudando um visitante e estendendo-lhe o amor de Cristo: TODA BOA OBRA… Em todos esses sentidos, você não é diferente de Timóteo!!

E a instrução que esse texto que lemos quer deixar para você hoje é a seguinte:

No processo de ser preparado para toda boa obra,

agarre-se à utilidade da Palavra inspirada por Deus

Veja, Paulo não está falando de qualquer livro! Paulo não está falando de bula de remédio nem de manual de instruções!! Paulo não está tratando de um mero compêndio teológico que a gente deixa empoeirar e substitui quando as folhas amarelaram ou quando uma nova edição atualizada se impõe! Paulo está falando das Escrituras que, por serem inspiradas, são também sagradas.

O adjetivo inspirada é um desses infelizes casos de tradução da Bíblia, e são raras as versões bíblicas (e não encontrei nenhuma em português!) que acertam aqui! Se a gente, ao ler a expressão “inspirada”, pensa em música e poesia e nas musas inspiradoras dos poetas, então… a gente já se perdeu no que Paulo quer dizer com o termo! Que bom se os tradutores tivessem tido a coragem de escrever “Toda a Escritura é exalada, expirada, soprada por Deus”! Porque o termo grego indica o próprio ato de Deus vir sobre os autores humanos da Bíblia e FUUUUUUhhhhh….. soprá-la como que para fora de sua própria boca, exalá-la, expirá-la! Se tem uma coisa que não ocorre, é o autor bíblico, por contemplar a natureza e experimentar Deus, então ser inspirado a escrever sobre quem ele é. Não!! A Palavra é soprada no sentido de ser a própria mensagem do próprio Deus em linguagem humana. Num sentido bem real, a Palavra de Deus, vamos colocar assim, é o próprio Deus! Você quer conhecê-lo e experimentá-lo? Leia sua Palavra. Nada lhe mostrará Deus de modo mais seguro.

Por isso mesmo Paulo pode dizer que a Palavra é sagrada. Com ela não se brinca! Não pode ser torcida nem mal-representada! E não pode ser abandonada nem substituída! Ela é a própria mensagem do Deus santo! É também santa no sentido de ser inigualável. Não há outro livro como ela, e quem dera pudéssemos ter por ela o zelo, o amor, a paixão, que temos pela nossa gramática, pelos nossos compêndios de ensino, pelas nossas revistas e pelas literaturas que costumamos ler.

Veja: não basta você crer que a Palavra é inspirada. Não basta crer que ela é sagrada, santa. Não basta ter uma convicção de sua clareza, de que não se trata de um conjunto de símbolos indecifráveis, mas tem o claro conselho de Deus para sua vida. Não basta você ter a compreensão lógica e intelectual de que ela é inerrante, não pode conter e não contém erros, de que ela é infalível e por isso é também confiável… Você precisa hoje, como Timóteo, ser relembrado de que a Palavra de Deus, as Sagradas Letras, as Escrituras sopradas por Deus, são também autoritárias e portanto úteis, ou seja, são aplicáveis, têm valor para você hoje… quase dois mil anos depois de Paulo ter escrito a respeito de sua utilidade, elas se mantêm inalteravelmente válidas e aplicáveis, igualmente relevantes e tendo algo a comunicar a este mundo caótico. E exigem sua submissão!

Veja: agarrar-se à atualidade e utilidade das Escrituras requer uma tomada de posição! Assim como eu preciso deixar de lado minha intuição, minha lógica humana, o recurso à minha vizinha, e então sentar e ler o manual da minha cafeteira, assim também eu preciso abandonar as outras vozes que hoje tentam tirar o lugar da Palavra na minha vida. E essas vozes têm confundido muitos cristãos hoje, como na igreja de Éfeso. Se não temos falsas doutrinas sendo descaradamente ensinadas em nossos púlpitos hoje, temos por outro lado a sutil infiltração de valores anticristãos, antiDeus e antibíblicos deste mundo. E como a Palavra muitas vezes é vista até mesmo por nós cristãos como o “conto da carochinha”, o manual de ética e moral que raramente lemos, o texto caduco que não consegue se manifestar quando se trata dos grandes temas dos nossos dias, como “a violência, a eutanásia, o suicídio, o divórcio, o estupro, a desintegração do casamento, a exaltação pelas novelas de estilos de vida que ferem o próprio objetivo para o qual homens e mulheres foram criados e vc pode ir longe na sua lista…”, quando nem nós cristãos sabemos mais discernir os valores que o mundo nos quer fazer engolir a qualquer custo… saber distingui-los dos valores eternos apresentados na Palavra, é porque precisamos ouvir de Paulo a mesma instrução.

O responsável e consagrado teólogo canadense D. A. Carson, em seu devocional diário, em que percorre toda a Palavra com seus comentários sobre diferentes textos bíblicos, afirma com propriedade o texto que quero ler para você aqui. Ele diz:

Precisamos confiar na Bíblia. Não apenas ela molda a mente do cristão numa visão de mundo profundamente estranha a essa nossa sociedade secularista e infinitamente egoísta, e não somente as Escrituras nos tornam sábios para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus, mas, exatamente porque elas são sopradas por Deus, são também úteis para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça. O perigo da igreja evangélica de nossos dias não é a rejeição formal das Escrituras, mas uma suposição irrealista de que conhecemos a Bíblia quando na verdade avançamos (aliás, regredimos) em direção a um sem-número de conferências sobre liderança, técnicas, ferramentas, truques, agendas. Talvez algumas dessas coisas até fossem úteis se a própria Bíblia não fosse tão deixada de lado e marginalizada nesses mesmo eventos.

A Palavra de Deus é útil e capaz. Agarre-se à utilidade da Palavra de Deus.  E a primeira utilidade da Escritura, segundo o texto que lemos é a seguinte:

1. Toda a Escritura é útil para toda a verdade

A Palavra de Deus não nos deixa dúvidas quanto aos ensinamentos do Senhor.

Para a maioria das pessoas no mundo de hoje, não há absolutos. Todos somos livres para crer, pensar e fazer o que quisermos. Não há necessariamente certo e errado. Tudo é relativo. Por isso, não se pode ir contra o mal. Somente podemos alimentar uma opinião, porque são inúmeras as opiniões sobre os mais variados assuntos.

Mas Paulo está dizendo a Timóteo que a Palavra de Deus ensina, e o que ela ensina não é uma verdade com sobretons de cinza ou uma meia-verdade. A verdade da Palavra é preto no branco. E é a única verdade que rege todas as outras verdades deste mundo. A Escritura é um divisor de águas em todos os assuntos. É a fonte da nossa certeza. Não oferece meio-termo. Jay Adams, o grande autor que tem algumas obras publicadas em português e escreve sobre aconselhamento cristão, diz:

O pensamento bíblico é sempre uma clara antítese. Fala sobre verdadeiro e falso, estreito e largo, luz e trevas, bom e mau, conselho ímpio e conselho santo, puro e impuro, crente e descrente, salvo e perdido, a favor e contra, vida e morte, céu e inferno.

Veja, a Bíblia é o padrão autorizado pelo qual todos os homens serão julgados. Ela é nossa autoridade normativa. Ela determina aquilo em que cremos. Ela nos guia e orienta. Ela nos governa sem confirmar nossos próprios pensamentos. Jamais nos guiamos pela engenhosidade e pela razão humana. Sempre nos perguntamos: “O que a Bília tem a dizer sobre esse assunto?”. Nunca começamos com “O que será que Fulano e Beltrano pensam?” ou “Como a igreja x, y ou z está fazendo?”. Começamos com um estudo aprofundado das Escrituras antes de irmos a qualquer outra fonte. Assim honramos a Palavra de Deus. Todo o rumo que esta igreja tomar e a definição de uma declaração de fé e de posicionamentos teológicos passará pelo exame detido das Escrituras.

E você pessoalmente? Antes de ler e estudar a Palavra, você vai aos livros, aos seminários, ouve as fitas sobre casamento, criação de filhos, dons etc.?

A Bíblia é que nos julga, não o contrário. Nós não a dominamos, ela nos domina. Nossos caminhos não são os caminhos de Deus. Nossos pensamentos não são seus pensamentos. Precisamos ser renovados, aliás transformados, em nossos modos de compreensão. Existem muitos pensamentos mundanos em nossa vida que precisamos remover por meio da aplicação da verdade da Palavra.

Precisamos desenvolver convicções bíblicas e não meramente opiniões ou preferências. Precisamos mergulhar na Palavra e desenvolver, renovar e fortalecer nossas convicções sobre o que é certo e errado. Caso contrário, andaremos tropeçando, vacilantes. O que a Bíblia diz sobre “aborto”? Deus é o autor da vida, portanto matar o que Deus criou é contra ele. Que atitudes devemos ter em relação a ter filhos? A Bíblia não nos ensina a deixar de sermos sábios e planejar a família de modo que o agrade e traga glória para ele, mas ela também combate o egoísmo e as prioridades mundanas em detrimento do desejo de atender à ordem bíblica clara de crescermos e multiplicarmos. O que ela tem a nos dizer sobre a evolução? Sobre o divórcio? Sobre os papéis de homem e mulher?

A Palavra de Deus é útil para lhe ensinar a verdade.

Vamos examinar a segunda utilidade que o texto nos aponta para a Escritura:

2. Toda a Escritura é útil para levá-lo a reconhecer sua culpa

O termo aqui traduzido por repreensão geralmente tem o sentido no original de “culpar” ou “dar como culpado num tribunal”.

Quando lemos a Palavra de Deus, vemos que somos culpados de algo do qual precisamos nos arrepender e que precisamos confessar. Aí está um aspecto crucial da salvação e da nossa santificação.

O que a Bíblia tem a dizer sobre minha família disfuncional? Sobre um hábito ou um comportamento inadequado? Sobre a ira que eu não consigo controlar? Sobre como Deus nos aceita em Cristo apesar de nós?

No processo de preparação para essa mensagem, tive um daqueles momentos de forte impaciência com a minha esposa. Na verdade, em vez de servi-la e conduzi-la à verdade da Palavra, estando sensível a sua necessidade, de repente me vi agindo como um pai bravo que acha que precisa gritar para fazer valer sua sabedoria! Eu acabei de quebrar o coração dela com minhas palavras ásperas, insensíveis, cheias de justiça própria e superioridade e o Espírito de Deus quebrantou meu coração. Vocês sabem o que ele fez? Ele trouxe a minha lembrança mais tarde o que Paulo disse aos efésios a respeito de nós, maridos: “Maridos, ame cada um a sua mulher, assim como Cristo amou a igreja e entregou-se por ela para santificá-la, tendo-a purificado pelo lavar da água mediante a palavra, e para apresentá-la a si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e inculpável”. Diante do que para mim era naquela hora algo intolerável, em vez de amar e de lavar o coração e a mente da minha esposa com a Palavra, fazendo voltar seus olhos para Cristo, eu preferi me sentir melhor que ela e assim pequei sendo arrogante e hipócrita. Depois, Deus me fez enxergar que ela estava fazendo uma observação justa e sincera, e que eu, na minha impaciência, não queria ser perturbado no meu mundo, no meu reinado, no meu controle da situação. Quem sou eu para ser questionado! Naquela hora, a Palavra me repreendeu, me fez ver a minha culpa e eu pude mais tarde pedir perdão a minha esposa pela minha estupidez.

Precisamos prestar contas do nosso modo de viver e saber quando quebramos a lei de Deus. O Espírito Santo usa a Bíblia para nos ajudar a enxergar nossa culpa diante de Deus. Onde há pecado, deve haver a convicção do Espírito. Ser convencido do pecado por Deus é ser achado culpado. Nosso pecado é contra Deus e é a ele que vamos um dia responder. Quando pequei contra minha esposa, foi contra Deus em última análise que eu estava pecando.

A Escritura também tem uma terceira utilidade e ela não fica apenas na dimensão de nos convercer de nossa culpa.

3. Toda a Escritura é útil para o arrependimento, a confissão e o perdão

Veja que, como no exemplo com minha esposa, a convicção do Espírito, por sua graça, nos leva a corrigirmos nossos caminhos.

A Palavra não é útil para correção no sentido que muitas vezes usamos o termo. Quando dizemos “Corrigi aquela pessoa” ou “Corrigi o meu filho”, geralmente apenas queremos dizer que falamos o que deveria estar certo. A Palavra de Deus não somente faz isso, mas ela nos restaura a uma condição de correção, ela nos põe literalmente no prumo. Esse é o sentido do termo correção no original.

Como ela nos repreende, ou seja, ela nos mostra nossa culpabilidade, pode assim com poder nos corrigir. Ela enternece nosso coração com a ajuda do Espírito e abate nossa soberba primeiro para então aplicar seu toque modelador, corretor.

E como ela faz isso? Em três etapas depois de nos convencer, ou seja, nos mostrar nossa culpa. Ela primeiramente nos leva ao arrependimento. Não um mero remorso ou uma lástima por termos nos desvirtuado da Palavra, mas uma tristeza segundo Deus por causa da nossa transgressão e ofensa contra ele em primeiro lugar e contra o próximo em segundo lugar. Arrependimento envolve mudança. Se não, não houve arrependimento genuíno. A segunda etapa é a confissão. Por confissão queremos dizer que concordamos com Deus e sua Palavra. Não desembuchamos nosso pecado apenas para nos sentir melhor, mas de fato concordamos com o conselho de Deus em sua Palavra e a ele nos submetemos. Reconhecemos que ele está certo e nós, errados. E a terceira fase: o perdão. Temos nosso relacionamento com Deus restaurado. Caso encerrado. Não mais você nem outras pessoas o acusarão daquilo que entregou a Deus e abandonou.

Outro dia fiz um enorme caso com meu filho  Caio porque, em vez de usar o processo correto para desligar meu computador, ele foi lá e simplesmente apertou o botão. Nem sei se faz tanta diferença assim, mas me ensinaram que o certo seria seguir os passos do computador, para desligá-lo seguramente… e assim tento fazer, mesmo contra minha vontade e tendo de acumular certa doze de paciência. O Caio, que estava com a atenção na leitura cheia de aventuras das Crônicas de Nárnia aquela noite, não pensou duas vezes. Apertou o botão e sentou-se despreocupado para ler seu livro. Quando percebi o que tinha feito pela rapidez com que fez, achei que precisava dar uma lição de responsabilidade nele e consegui com meu discurso inflamado arrancar lágrimas do moleque com as minhas palavras cheias de razão!!! Pressão pura. Indignado. Uma semana depois, cansado depois de um dia cheio, com frio e querendo me deitar logo, olhei para o computador ligado, perguntei dentro de mim por que ninguém tinha se dignado a fazer o que era dever de todos menos meu, e não hesitei… apertei o botão para silenciar o aparelho o mais rápido possível, cheio de razão e de raiva!! Alguns dias depois, o Espírito me lembrou:

– Fabiani, vc lembra quanto vc fez o Caio sofrer outro dia por causa do modo como ele desligou o computador?

– Sim, Senhor, lembro! Como você desligou outro dia o computador, Fabiani?

– Tá, Senhor, não precisa dizer mais nada.

– Caio… você sabe que o papai não quer que você aperte o botão do computador para desligar sem seguir as instruções que eu te dei, não sabe? Lembra como eu fiquei bravo outro dia por causa disso?

– Lembro!!

– Pois é, meu filho, alguns dias depois eu fiz a mesma coisa porque eu estava sem paciência de esperar, e Deus me mostrou que eu pequei contra você.

Depois de alguns segundos me abraçando forte… ele me pergunta:

– Tô quebrando algum osso aí?

Ele tinha aprendido uma lição sobre o pecado de seu pai, que serviu para ele também. Hoje, meditando nesse texto, agradeci a Deus e pedi: “Senhor protege meus filhos e minha esposa de mim, o maior dos pecadores!!”.

O perdão de Deus e do próximo passa tudo a limpo. A gente respira aliviado e olha de novo para a cruz!! A Palavra nos corrige…

E porque a Palavra é útil para nos ensinar, para nos repreender, para nos corrigir, levando ao arrependimento, por fim…

4. Toda a Escritura é útil para a prática disciplinada de um viver santo

A palavra aqui traduzida por “instrução” é a mesma palavra que deu origem em nossa língua à palavra “pedagogia”. Dizia respeito à criação de filhos no mundo grego e passou a significar instrução, aprendizado, disciplina, treino.

Veja que fomos libertos do poder e da culpa do pecado, mas como cristãos precisamos como criancinhas ser levados pela mão por Deus por meio de sua Palavra para aprendermos o que significa ser santos, o que significa viver retamente. Um escravo que recebe sua carta de alforria depois de uma vida de aprisionamento e sujeição desumana certamente precisará, mesmo com o documento de liberdade em mãos, renovar sua mente e se acostumar com a verdade de que foi liberto. Não passamos a ser plenamente perfeitos como num passe de mágica. Paulo nos ensina em outras de suas cartas que há em nós ainda uma luta entre o velho e o novo homem. Há ainda a presença do pecado. A carne, que é outra forma de se referir a nossa antiga natureza sem Cristo, ainda está sendo mortificada e tenta reinar. Por isso a retidão é um processo chamado santificação que precisa ser desenvolvido.

E, para esse processo, precisamos da verdade da Palavra, precisamos ser confrontados em nossa forma de ver o mundo e em nosso comportamento, precisamos nos arrepender, precisamos confessar nossos pecados a Deus e ao homens, precisamos abraçar o perdão de Deus. Tudo isso são elementos da nossa instrução em justiça.

Os hábitos santos são cultivados à medida que obedecemos a Palavra de Deus e vivemos um novo estilo de vida. Precisamos em cada caso encontrar a alternativa bíblica e incutir isso no nosso viver para a glória de Deus. Esse é o ato de se revestir do evangelho. Esse é o sentido de nos revestirmos de toda a armadura de Deus. Não se trata de uma sessão espetacular e sobrenatural de transferência de poderes místicos, mas trata-se a cada dia de mergulhar na Palavra e deixar que as verdades que já são incontestáveis de fato penetrem o nosso viver e nos tranformem. Já temos tudo o que a armadura de Deus nos promete, pois Cristo morreu para nos garantir isso, mas, como no caso do ex-escravo, agora livre, precisamos apenas nos acostumar com as boas notícias da nossa salvação e nova vida.

Aplicação

Para encerrar, eu queria ajudá-lo a aplicar esse texto a sua vida. Você precisa sair daqui hoje com sua mente renovada pelo poder da Palavra, e somente o Espírito pode fazer isso. Mas há alguns elementos do texto precisam ficar soando em você nesta semana:

1. Toda a Escritura

Veja que Paulo não está falando toda com o sentido de “cada”. Não é a mesma coisa de quando a gente fala “todo cristão deve se batizar”, indicando cada um indivudualmente. Aqui o artigo “a” é muito importante, bem como a maiúscula de Escritura, porque nos indicam que Paulo 1) está falando de uma só Escritura, a única, que pode ser útil para nos ensinar, nos repreender, nos cirrigir e nos instruir na justiça. E 2) Paulo está dizendo que esta única e verdadeira Escritura tem em sua totalidade o poder de nos moldar. Não parte dela, mas toda ela. Por isso é importante que você leia sua Bíblia ao longo ano. Por isso é importante que você leia livros que o ajudem a entender a mensagem central de sua Bíblia. Ajudando-o a entender que mesmo as infindáveis listas de nomes das genealogias de Números ou as leis cerimoniais meticulosas de Levítico têm todas uma mensagem central, a saber, Cristo, de quem elas são sombra. E eu não posso desprezar essas passagens como menos aplicáveis. Porque elas me ajudam a enxergar melhor a Cristo e o plano eterno da redenção, cada uma dessas passagens tem para a minha vida hoje valor inestimável e inquestionável.

2. Para quê?

Tudo o que Deus faz é recheado de propósito. Ele não o chama, regenera, converte, transforma para você ser uma brasa distante no braseiro da igreja. Ele o chama e lhe dá o poder e a capacitação que vem dele para você, homem e mulher de Deus, ser plenamente, perfeitamente capacitado para tudo para o que ele te chamou. Não se esconda mais atrás da sua timidez, não diga mais “Não sei falar”, não afirme mais que “Existe gente mais preparada que eu”, não se abata mais por seu pecado e por sua inconstância, não prefira mais o seu conforto. Abrace o propósito que Deus lhe estabeleceu. Você foi chamado para dar frutos que o glorifiquem. E você tem sua Palavra, que lhe dá o lastro de sustentação para enfrentar qualquer temporal do mundo, da carne, do Diabo! Qualquer tentação que vem a você em forma de uma seta do Adversário! Qualquer sugestão da carne sobre o pecado que ainda reside em você, do velho homem que tenta se impor! Qualquer razão e lógica desse mundo sem Deus! A tudo isso podemos resistir porque, como o próprio Paulo escreveu aos mesmos efésios noutra carta, podemos nos revestir de toda a armadura de Deus, que dentre muitas coisas consiste em nos cingir com a verdade, vestindo-nos da couraça da justiça, calçando os pés com a preparação do evangelho da paz e tomando a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus.

Você é homem de Deus? Você é mulher de Deus? Você é jovem de Deus? Você precisa da Palavra e precisa crer no seu poder e utilidade, precisa saber que só ela lhe basta e é suficiente, e que você precisa da totalidade do conselho de Deus.

Aquele que entende e vive essas coisas, que vive o propósito de uma vida chamada para dar frutos, é aquele que recebeu da Palavra a sabedoria para a salvação. As boas obras são prova de que você foi salvo, mas também de que exerce sua salvação com a sabedoria que vem da Palavra. Que tolice um engenheiro que tenta construir um edifício sem recorrer à planta!!  Fomos chamados para viver nossa salvação com sabedoria, e o temor do Senhor é o princípio da sabedoria. Se o tememos, sujeitamo-nos a sua Palavra!

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4 comentários em “Estudos: A Palavra que nos basta [Fabiano Medeiros]

  1. Ricardo Inacio Dondoni
    8 de maio de 2009

    Excelente texto, excelente reflexão…
    Longo para um texto bloggeriano, mas no tamanho perfeito de uma pregação…
    Paz…

    • fabianimedeiros
      8 de maio de 2009

      Obrigado, Ricardo!! Fico feliz de que Deus tenha me usado de algum modo para abençoar sua vida. Quanto ao tamanho, é sempre uma dúvida. Às vezes vejo coisas bem maiores por aí. Mas, no final, o que pesa mesmo é o senso de precisar dizer algo que estou vivenciando da parte de Deus, breve ou longo!! Mas valeu pela sinceridade! Deus te abençoe!

  2. Hellen Gonçalves
    21 de maio de 2009

    Palavra abençoada… Parecia que eu estava vendo o irmão pregando….

    saudades dessa familia abençoada!!!!

    Abraços de Erechim!!!

    Família Gonçalves

    • fabianimedeiros
      22 de maio de 2009

      Oi, Hellen, saudades de você também!! Muito obrigado por suas palavras… Que Deus possa te abençoar com a reflexão da passagem… E vocês foram e são para nós grande bênção!

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