Graça Soberana

CENTRADOS NO EVANGELHO: reflexões cristocêntricas sobre a graça e as insondáveis riquezas do evangelho na vida de um desprezível pecador

Reina para sempre o Leão indomado

Não postei nada no Natal, mas queria tê-lo feito, sobretudo porque As crônicas de Nárnia: o Leão, a Feiticeira e o guarda-roupa, o clássico de C. S. Lewis lindamente transformado na superprodução da Disney, acabara de entrar em cartaz no começo de dezembro com sua no mínimo interessante representação do evangelho. Mas fiquei muito feliz que, em meio a tanta correria e tantas surpresas aqui e ali, às vezes pondo nossa fé à prova, Deus nos presenteou a todos aqui em casa com a Talita, nossa segunda menina, a caçula de quatro filhos, nosso fabuloso presente de Natal!
Mas eu não podia deixar de falar de Nárnia, não para apresentar nenhuma crítica cheia de novos insights (já que isso estaria tão fora da minha capacidade), nem mesmo para apenas não deixar passar alguma menção do filme. Antes, sobretudo porque esse filme precisa ser assistido por todos os cristãos. Por quê? Porque acredito que seja, sim, uma excelente oportunidade para começarmos debates sobre o evangelho e aproveitarmos o fascínio que obras como a de C. S. Lewis exercem em todos nós, de crianças a maduros. Mas também porque nosso mundinho cristão em geral tende a rechaçar esse tipo de obra, taxando-a de mundana e até diabólica.

Não se engane! Lewis era um cristão, ao menos professo, com uma conversão impressionante das garras do ateísmo. Ele talvez tivesse posicionamentos teológicos não muito conservadores aqui e ali, mas não podemos negar seu saboroso estilo literário e sua impecável habilidade de se utilizar de metáforas, mitos e todos os recursos da literatura a seu alcance para transmitir verdades eternas e profundas, porque evangélicas (mesmo em meio a mensagens com as quais você e eu possamos discordar).

Talvez como eu, por exemplo, você também estranhe a teoria que ele defende no filme acerca da expiação, aquele ato da cruz que encerra a morte de Cristo e opera a favor dos cristãos com as maravilhas da salvação: redenção, reconciliação, propiciação etc. Tudo isso e muito mais emanam daquele ato único de expiação, perpetrado de uma vez por todas, irreversível, segurança de sermos hoje salvos e comprados pelo sangue do Cordeiro: o Leão que voluntariamente se fez sacrificar.

A teoria esposada por Lewis foi também defendida por muitos outros nomes na história da igreja, incluindo os primeiros líderes eclesiásticos, os chamados “pais da igreja”. Segundo ela, depois da Queda, este mundo estava totalmente submetido ao controle do Diabo (representado no filme pela “Feiticeira”). Por isso, para que Deus pudesse salvar o homem do pecado, ele entrou num acordo com o Diabo, pelo qual este deixava de reclamar a morte dos pecadores caso o próprio Filho de Deus fosse ele mesmo oferecido em sacrifício no lugar desses pecadores. Essa é a chamada “teoria do resgate” ou “teoria clássica”, defendida por Orígenes (185-254 d.C.) e hoje pela Igreja Ortodoxa, além de alguns representantes do movimento da palavra da fé ou da prosperidade (Benny Hinn, Kenneth Hagin, Morris Cerullo entre eles). (Estes, porém, fazem a ressalva: o “resgate” seria não a morte na cruz, mas o sofrimento que Cristo experimentou no inferno, nas mãos de Satanás, nos três dias em que esteve morto). Orígenes acreditava que Satanás havia aceitado a oferta da morte de Cristo por pensar que sairia vitorioso sobre o Leão, mas na verdade mordeu a isca e foi “enganado” por Deus, quando este ressuscitou Cristo dentre os mortos.

As dificuldades dessa teoria são que: 1) carecem de apoio bíblico; 2) desprezam o fato de que a morte de Cristo servia para satisfazer a ira de Deus, não para satisfazer Satanás; 3) exagera o poder de Satanás (Satanás nada pode exigir de Deus!); e 4) enfraquece o papel de Deus-Pai no planejamento da morte de seu Filho (2Co 5.21; Is 53.6,10).

A visão mais comum entre os reformados é a que, para mim, mais facilmente flui das páginas da Escritura: trata-se do entendimento de uma expiação pela “substituição penal”, ou “teoria da satisfação”, ou “teoria da expiação vicária”. Era também defendida por Lutero (1483-1546), Calvino (1509-1564) e outros grandes nomes da Reforma. Segundo essa teoria, a misericórdia de Deus toma o lugar de sua ira no ato da cruz, quando Cristo é morto em sacrifício pelo pecado.

De todas as teorias acerca da expiação, a da substituição penal é a que melhor reúne todas as muitas facetas da apresentação que a Bíblia faz da expiação. Cristo morreu para satisfazer as justas demandas da natureza santa de Deus. Em sua morte na cruz, Cristo ofereceu-se como sacrifício, tomou nosso lugar, redimiu-nos da escravidão e da culpa do pecado e em seu corpo levou a punição que nossos pecados mereciam, satisfazendo assim a justa ira de Deus e conquistando uma reconciliação entre Deus e o homem! Aleluia!

Assista a Nárnia tendo essa salvaguarda bíblico-teológica em mente!

É também um pouco desconcertante, o que de certo modo se ameniza pela limitações de qualquer alegoria ou metáfora em levar às últimas conseqüências seus elementos de comparação, que Aslan, o Leão, tenha morrido somente por Edmund, o personagem traidor na história. Sabemos que a Bíblia não nos dá margem para uma visão ingênua e pueril de nenhum ser humano: todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus (Rm 3.23) e não há um justo, um sequer (Rm 3.10)! No final, Aslan só poderia ter morrido também por Lucy, a doce e bondosa bonequinha de bochechas coradas, tanto quanto pelo (na trama) irritante e egocêntrico Edmund. E não menos pelo moralista Edward, cheio de justiça própria e julgamento. E pela às vezes apática e desdenhosa Susan, cheia de descrença e com um racionalismo muitas vezes operando em desserviço dela própria.

Mas não deixe de assitir ao filme, se ainda não o fez, e deixe-se emocionar pela morte de Aslan, a representar Aquele que por amor se deu, foi vilipendiado, morreu e ressurgiu glorioso para nos tirar do domínio das trevas e nos trazer de volta para o Reino de sua maravilhosa luz! Deixe-se comover mais uma vez pela simples profundidade do evangelho e renda-se sem reservas ao verdadeiro Leão que não se deixa domar, sim, a Jesus Cristo, o Leão da Tribo de Judá, pois ele é Senhor da terra e céus e ele quer ser Senhor de sua vida também!

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2 comentários em “Reina para sempre o Leão indomado

  1. Paulo Júnio
    20 de maio de 2011

    Olá meu caro,

    estou a visitar seu site, e gostei bastante dele. Por vezes, procuro frequentas sites reformados (sou um reformado!).
    Porém, no “mundo-da-internet” eu não lido com questões da reforma, na verdade, me viro com um site de apologética-filosófica que talvez você conheça: teismo.net

    Quando você quiser ir lá visitar é bem vindo! O foque do meu site é: mostrar a superioriedade filosófica do teísmo sobre o ateísmo, PROCLAMAR a jovens cristãos, e cristãos em geral que ENTREM nas universidades públicas como cristãos-confessos racionais superiores em cosmovisão!

    Enfim, seu site vai para meus Favoritos!

    Abraços,

    Paulo

    teismo.net

    • Fá Medeiros
      31 de maio de 2011

      Muito obrigado, Paulo. Que Deus o abençoe!! Foi um prazer tê-lo por aqui.

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Publicado às 27 de dezembro de 2005 por em Evangelho e marcado , , .
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