Graça Soberana

CENTRADOS NO EVANGELHO: reflexões cristocêntricas sobre a graça e as insondáveis riquezas do evangelho na vida de um desprezível pecador

Graça, estranha graça

O hino Amazing grace (“estupefaciente”, “impressionante”, “incrível”, “inacreditável”, “extraordinária”… graça) recebeu algumas traduções em língua portuguesa. A versão que talvez mais “estranhe” quanto ao título e primeiro verso é a proposta por Joan Sutton, missionária batista no Brasil, americana, que tanto contribuiu para a hinódia nacional. Sua tradução foi publicada numa coletânea do extinto grupo musical batista SomMaior. Essa versão não tem, porém, nada de estranho! Já vi outras traduções… Sublime graça. E também Excelsa graça e Preciosa a graça. Mas somente Estranha graça capta melhor o que amazing transmite à mente do falante do inglês. Amazing é o adjetivo inglês derivado do substantivo maze, que significa “labirinto”. Percebe então? A graça nos deixa fora dos sentidos (não carismática, mas metaforicamente falando)! Ela é estonteante, eu escolheria dizer, se a métrica do hino comportasse o adjetivo de quatro sílabas.

O autor do estupendo Amazing grace é John Newton (1725-1807), navegador, pregador, hinista e uma das figuras mais fulgurantes do Reavivamento Evangélico inglês do século 18. Ele está para o gênero da correspondência teológica assim como Spurgeon está para a pregação. E, portanto, suas cartas (Letters of John Newton [Cartas de John Newton]) exigem leitura. (Sonho um dia vê-las em nossa língua!) (Da Editora Fiel, você pode ler De traficante de escravos a pregador, de Brian Edwards.)

Segundo a inscrição de sua lápide, escrita por ele próprio: “Um dia infiel e libertino, agente do escravagismo na África, pela rica misericórdia de Jesus Cristo preservado, restaurado, perdoado e designado para pregar a fé que por muitos anos labutara por destruir”. A história da conversão de Newton é o cenário para entendermos hinos como How sweet the name of Jesus sounds [Quão doce soa o nome de Jesus] e Estranha graça, e ressaltam ainda mais sua beleza. Leia você mesmo, na segunda de suas cartas (p. 22), as palavras simples e marcantes de Newton acerca de como ele vê e valoriza a graça:

Temos a tendência de cair na soberba espiritual, na autodependência, na vã confiança, na dependência às criaturas e em uma infinidade de males. O Senhor não raro nos revela uma única disposição pecaminosa ao desmacarar outra. Às vezes nos mostra o que pode fazer por nós e em nós; e outras vezes, quão pouco podemos fazer, e quão incapazes somos de ficar de pé sem ele. […] [O cristão] aprende a desconfiar cada vez mais de seu coração e a suspeitar de um laço a cada passo que dá. O momento negro e falto de consolos que trouxe sobre si em dias passados faz com que duplamente valorize a luz da face de Deus e o ensina a tremer diante de tudo o que possa entristecer o Espírito de Deus e fazê-lo afastar-se de novo. Os reiterados e múltiplos perdões que recebeu aumentam sua admiração da abundante e soberana misericórdia da aliança, aumentanto também o senso de obrigação para com ela. Muito lhe foi perdoado, portanto ele ama muito…

O evangelho é exatamente essa boa notícia do perdão que não merecíamos, de amor e amizade estendidos a nós pelo Criador, em Cristo, quando éramos odiosos e inimigos de Deus! Newton, como todos nós a cada dia, se deslumbra com o que não consegue totalmente explicar: a estonteante graça que nos alcançou!

Não existe Natal sem esse entendimento…

Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo da Lei, a fim de redimir os que estavam sob a Lei, para que recebêssemos a adoção de filhos (Gálatas 4.4,5).

Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade (João 1.14).

… Deus foi manifestado em corpo, justificado no Espírito, visto pelos anjos, pregado entre as nações, crido no mundo, recebido na glória (1Timóteo 3.16).

E, para preambular a semana natalina, fica essa reflexão do real sentido do evangelho da graça: o Deus que por amor desceu, viveu a vida perfeita, morreu a única morte que nos poderia salvar e foi então exaltado à direita de Deus!

Por isso fiz questão de incluir mais uma de minhas traduções: um hino que tão bem expressa o encanto gerado em nós pela graça, pelo amor de Deus, pelo evangelho. Que seja o que ocupe nossa mente na próxima semana mais que presentes e símbolos vagos, e, para além da próxima semana, todos os dias de nossa vida!

Ouça o mesmo hino em inglês na doce voz de Vikki Cook: Here is love [Aqui está o amor], do álbum All we long to see. A letra é de William Rees (1802-1883); adaptação, letra adicional e música, de Steve e Vikki Cook.

Vasto amor, tal como o oceano, que bondade sem cessar,
quando o Príncipe da Vida morreu pra nos resgatar!
Quem o seu amor não guarda? Quem o cessa de louvar?
Jamais vai ser esquecido pelos dias eternais.

Lá do monte do Calvário, jorram fontes sem fim;
das comportas de sua graça flui misericórdia a mim.
Graça e amor bem como rios caudalosos a correr,
paz do céu, fiel justiça ao mundo vil vêm envolver.

Oh, que amor sem par, tão glorioso amor,
tem por mim o Salvador.
Oh, que amor sem par, tão glorioso amor,
tem por mim o Salvador.

Plenitude me concedes, grande amor vem sobre mim,
abundante, sem medida, e me atrai pra junto a ti.
Só em ti me gloriarei; a este mundo vou negar.
Santo e puro me tornei, liberdade vou gozar.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 14 de dezembro de 2005 por em Graça soberana e marcado , , , .
%d blogueiros gostam disto: