Graça Soberana

CENTRADOS NO EVANGELHO: reflexões cristocêntricas sobre a graça e as insondáveis riquezas do evangelho na vida de um desprezível pecador

Graça santificadora: afável disciplina

Graça infinda foi um dos hinos que mais me deram prazer traduzir. Trata-se de Depth of mercy, de Charles Wesley (1707-1778), gravado no CD homônimo, com música de Bob Kauflin.

Graça infinda tenho, sim,
estendida mesmo a mim.
De sua ira me poupou;
logo a mim, tão falho sou.
Quantas vezes me afastei
de sua boa e santa lei.
Como carecia eu
de seu sangue, que verteu.

Dá tua graça, Deus, sem par;
vem meus erros consertar.
Meu pecar deploro aqui.
Quero só olhar a ti.
Ante mim o Salvador,
tem nas mãos a marca e a dor:
calam fundo em meu ser —
liberdade veio ter.

Não somente somos justificados pela graça. Somos por ela conduzidos em segurança até o porto destino nosso! Como diz John Murray, em Redemption accomplished and applied [Redenção consumada e aplicada] (Eerdmans, p. 147) (publicada no Brasil pela Editora Cultura Cristã):

Não podemos esquecer, naturalmente, que, no processo de santificação, nossa atividade deve ocorrer no máximo de sua capacidade. Não podemos nos fiar, entretanto, em nossa força de resolução ou propósito. É quando somos fracos que somos fortes. É pela graça que estamos sendo salvos, tão certo quanto fomos salvos pela graça. Se não estivermos agudamente sensíveis à nossa absoluta impotência, então podemos fazer dos meios para a santificação o agente da justiça própria e do orgulho e assim destruir o propósito da santificação. Não podemos depender dos meios para a santificação, mas do Deus de toda a graça. O moralismo autoconfiante promove a soberba, e a santificação promove humildade e contrição.

É verdade, porém, que existe uma cooperação com o Espírito Santo, que o próprio Murray reconhece. E, como Wayne Grudem deixa bem claro, em seu Manual de doutrinas cristãs (trad. Heber Carlos de Campos, Vida, 2005, p. 364):

Alguns não concordam com a idéia de que Deus e o homem “cooperam”, porque insistem em que a obra de Deus é primária e nossa obra na santificação é somente secundária (v. Fp 2.12,13). Contudo, se explicamos a natureza do papel de Deus e do nosso papel de forma clara, não parece impróprio dizer que Deus e o homem cooperam na santificação. Não estamos dizendo que temos papéis iguais na santificação ou que ambos operam do mesmo modo, mas estamos dizendo simplesmente que cooperamos com Deus de forma propriada à nossa posição como filhos de Deus. E o fato de que a Escritura enfatiza o papel que exercemos na santificação (com todos os mandamentos morais do NT) torna apropriado ensinar que Deus nos chama para cooperar com ele nessa atividade.

Deve existir trabalho árduo de nossa parte. Não falo de legalismo, mas de participação ativa e apaixonada nesse processo estupendo de restauração. Uma resposta pronta, visceral, “atirada” ao Deus de toda a graça, à obra da cruz e aos constantes e doces convencimentos do Espírito. No entanto, sempre com os olhos postos na graça e a percepção da total falência de nossos menores esforços para nos salvar e mesmo para nos santificar.

Os puritanos eram mestres nesse assunto, e é riquíssimo o legado de compreensão acerca da graça por eles deixado. Tenho lido oração após oração de The valley of vision [O vale da visão] (muitas delas você encontra traduzidas em português no site Monergismo), coletânea de orações e devoções puritanas compilada por Arthur Bennett, e cada vez mais me encanto com a apreensão que eles tinham do evangelho, da graça justificadora e da graça santificadora, reconhecendo a inutilidade de suas obras à parte da Obra perfeita da cruz. Embora já tenha citado um hino, e este post esteja um tanto abarrotado de citações, é tentador não deixar de traduzir e incluir esta oração, com a esperança de que possa ser nossa oração hoje mesmo, nesta manhã e pelo dia afora.

 GRAÇA ATIVA [p. 116]

SENHOR JESUS, EXCELENTE SUMO SACERDOTE,
abriste um novo e vivo caminho,
pelo qual uma criatura caída pode achegar-se a ti e ser aceita.
Ajuda-me a contemplar a dignidade da tua Pessoa,
a perfeição do teu sacrifício,
a eficácia da tua intercessão.
Oh, que bênção se segue à devoção,
quando em meio a todas as provações que me exaurem,
os cuidados que me corroem,
os temores que me perturbam,
as enfermidades que me oprimem,
posso vir a ti em minha necessidade.
e experimentar paz que ultrapassa o entendimento!
A graça que restaura é vital para preservar-me,
guiar-me, guardar-me, suprir-me, ajudar-me.
E aqui teus santos fomentam minha esperança;
foram um dia pobres e agora são ricos,
presos e agora estão livres,
provados e agora, vitoriosos.
Cada nova obrigação exige mais graça do que a que agora possuo,
mas não mais do que se possa achar em ti, o tesouro divino
em que habita toda a plenitude.
A ti corro para receber graça sobre graça,
até que se preencha cada vácuo deixado pelo pecado
e eu esteja cheio de toda a tua plenitude.
Sejam meus desejos ampliados e minhas esperanças alimentadas,
para que eu te honre pela minha total dependência
e pela excelência da minha expectativa.
Sê comigo e prepara-me para todos
os sorrisos da prosperidade, as carrancas da adversidade,
as perdas de coisas importantes, a morte de amigos,
os dias de trevas, as transformações da vida
e a última e maior de todas as transformações.
Que eu ache tua graça suficiente para todas as minhas necessidades.

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