Graça Soberana

CENTRADOS NO EVANGELHO: reflexões cristocêntricas sobre a graça e as insondáveis riquezas do evangelho na vida de um desprezível pecador

Graça justificadora: a loucura da cruz

Precisamos tomar o cuidado de, na hora de pregar o evangelho para nós mesmos, não pregarmos um evangelho sem cruz. Devemos tomar o cuidado de não nos fiarmos no chamado amor incondicional de Deus sem perceber que seu amor somente flui em nossa direção em conseqüência da morte expiatória de Cristo.

Jerry Bridges, The discipline of grace [A disciplina da graça], p. 59

Hoje queria apenas parar para meditar um pouco sobre a graça justificadora, demonstrada tão nitidamente na cruz, epítome do evangelho. Não me aventuro por nenhuma consideração sem antes reproduzir aqui a passagem bíblica que com mais clareza e abrangência apresenta o evangelho. Para quem não se recorda ou há tempos não lê o extradordinário texto, aqui vai o tesouro…

Sabemos que tudo o que a Lei diz, o diz àqueles que estão debaixo dela, para que toda boca se cale e todo o mundo esteja sob o juízo de Deus. Portanto, ninguém será declarado justo diante dele baseando-se na obediência à Lei, pois é mediante a Lei que nos tornamos plenamente conscientes do pecado. Mas agora se manifestou uma justiça que provém de Deus, independente da Lei, da qual testemunham a Lei e os Profetas, justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo para todos os que crêem. Não há distinção, pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus. Deus o ofereceu como sacrifício para propiciação mediante a fé, pelo seu sangue, demonstrando a sua justiça. Em sua tolerância, havia deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; mas, no presente, demonstrou a sua justiça, a fim de ser justo e justificador daquele que tem fé em Jesus (Romanos 3.19-26).

Justificados gratuitamente por sua graça. Aleluia! Não contribuímos uma palha sequer para a nossa salvação. Como o texto de Efésios 2 deixa bem claro, nem tínhamos condições de ouvir, de atender, de entender ou mesmo de aspirar às maravilhas da nova vida. Estávamos mortinhos da silva! Mas vivíssimos para um estado de tenebrosa oposição a Deus. Ele nos fez reviver e nos plantou a fé que pela graça operou o arrependimento e nos permitiu apropriar-nos da redenção, o ato concreto da graça que hoje nos torna justos, de soberbos rebeldes em humilhados servos.

Deus o ofereceu como sacrifício para propiciação mediante a fé, pelo seu sangue. Por isso precisamos pregar o evangelho para nós mesmos a cada dia (usando uma das expressões preferidas de Jerry Bridges, tomada por empréstimo de puritanos que viveram séculos antes dele). Por isso fazemos menção do sangue. Por isso temos a cruz no centro de nossa vida, submetendo o todo das nossas concepões e atividades à luz do evangelho.

A cruz é loucura e vergonha para aqueles que não foram iluminados e trazidos para a Vida! Mas para nós, cristãos, que fomos salvos e justificados pela graça, é o fator que ocupa nossa mente e põe tudo o mais na perspectiva correta, nos fazendo entender presente, passado e futuro com os olhos da fé, abandonando o passado de rebelião contra Deus, abraçando o presente de real transformação e aguardando a bendita esperança.

Lendo a coluna de Luiz Caversan na Folha on-line de 13 de agosto de 2005, deparo com estas linhas:

Conheço um monge zen budista, brasileiro e super bem humorado, que usa a seguinte preleção para tentar fazer com que as pessoas relaxem o suficiente para conseguir meditar: “Preste muita atenção no que se passa na sua mente agora. Esqueça todo o resto. Lembre-se apenas de que o passado e o futuro não existem. Porque o passado já passou. E o que virá, o futuro, simplesmente ainda não aconteceu”.

Talvez por conta da idade provecta ―cinqüentinha na semana que vem…―, tenho refletido muito sobre esta questão do relacionamento com o tempo.

E, depois de algumas tergiversações, ele conclui:

Não sou ingênuo o suficiente (talvez quisesse ser) para acreditar na possibilidade do total desligamento em relação ao passado que nos aprisiona e ao futuro que nos amedronta. Nem burro (só um pouco) para desconsiderar que devemos aproveitar os benefícios de nossa herança cultural e os estímulos de nossas metas futuras.

Mas me comprometi, na virada deste meu meio século, a prestar muito mais atenção no que está acontecendo no “meu” agora.

Para não viver eternamente em função das cinco décadas que já percorri, nem ficar acuado esperando a morte chegar.

Felizmente a cruz nos oferece total segurança de enxergar tudo, passado, presente e futuro, sob uma perspectiva “loucamente” diferente, na contramão da cultura relativista e perdida em que vivemos! E não só nos faz enxergar, mas nos apresenta a realidade de uma nova vida, “o total desligamento em relação a um passado” que não mais nos aprisiona: a cruz está vazia (assim como a tumba fria), e dela emana sem cessar o sangue que percorre a história da redenção, as páginas da Escritura e a minha pessoal história de resgate…

O lindo cântico de Mark Altrogge (We sing your mercies [Cantamos tuas misericórdias], gravado em All for you), cujas antíteses me deram verdadeiro prazer de traduzir, reflete com muita pertinência a loucura da cruz, a qual cantamos em gratidão à graça que nos justificou.

Tua graça entoamos
e teu louvor pra sempre.
Cantamos teu eterno amor.
Tua graça entoamos
e teu louvor pra sempre,
soberano Deus,
pois morreste ali na cruz por nós.

Puderam pendurar a quem os céus criou?!
E então perfurar a mão que me curou?!
Puderam dar-lhe fel a quem nos deu só pão?!
Capazes de sacrificar a quem a vida deu?!

Podia em treva estar aquele que a luz deu?
E ter o Deus de amor rasgado o coração?
Abandonado ser o que nos fez irmãos?
Punido ser por todos nós sem culpa ou mancha ter?


 
 
 
 

 

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Publicado às 12 de dezembro de 2005 por em Graça justificadora, Graça soberana e marcado , , .
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