Graça Soberana

CENTRADOS NO EVANGELHO: reflexões cristocêntricas sobre a graça e as insondáveis riquezas do evangelho na vida de um desprezível pecador

Graça soberana: uma contradição de termos?

Assim, hoje também há um remanescente escolhido pela graça.

Romanos 11.5

Depois de uma vida inteira de acirrado legalismo, não foi sem certo choque que deparei com “graça soberana” como formulação teológica. Tudo que eu queria e precisava ouvir era a respeito de uma graça de fato graciosa, não soberana. Chegava de policiais! Bastava para mim de julgamento e controle!

Mas a graça só é graça porque existe um Soberano, que livremente a outorga. E, se queremos uma graça permissiva, afastamo-nos muito do conceito bíblico de graça. Não podemos, na verdade, sequer começar a entender a graça se não passarmos nosso dias estudando o Soberano da graça e a ele nos submetendo.

(Outro meio que Deus também usa é a paternidade. Como pais, passamos a entender melhor, ainda com absurda limitação, obviamente, o que significa corrigir a quem amamos e ainda amarmos aqueles a quem precisamos corrigir. Mas esse é assunto para outro post.)

Deus é o iniciador de todas as coisas. Ele é o Rei da graça eterna! Entender a graça implica aceitar a soberania de Deus em nos chamar para si mesmo quando nem o reconhecíamos como Senhor. Veja como Charles Spurgeon (1834-1892), o Príncipe dos Pregadores, que viveu na Inglaterra do século 19, descreve seu primeiro vislumbre da graça:

Quando vim para Cristo, pensei que eu mesmo tivesse tomado a iniciativa e, embora buscasse o Senhor com diligência, não fazia nem idéia de que o Senhor estivesse me buscando. Não me parece que o novo convertido perceba isso de saída. Posso recordar o dia e a hora exatos em que pela primeira vez acolhi essas verdades [acerca da doutrina da eleição] em minha alma ―quando elas, como dizia John Bunyan, entraram queimando em meu coração como um ferro incandescente―, e posso lembrar que cresci repentinamente, deixando de ser um bebê para me tornar um homem ―cresci no meu conhecimento das Escrituras, tendo encontrado, de uma vez por todas, a chave da verdade de Deus.

Certa noite, no meio da semana, sentado na casa de Deus, lá estava eu, sem prestar muita atenção ao sermão pregado, uma vez que não cria no que estava sendo dito. Fui então assaltado pelo seguinte pensamento:

― O que o levou a se tornar cristão?

― Busquei ao Senhor.

― Mas o que o levou a buscar ao Senhor?

Num instante a verdade brilhou em minha mente: jamais o teria buscado caso não tivesse havido previamente algum tipo de influência sobre minha mente que me
fizesse buscá-lo.

― Orei ― foi o que pensei.

Mas então me perguntei:

― O que me levou a orar?

― Fui induzido a orar por meio da leitura das Escrituras.

― O que me levou a ler as Escrituras?

Realmente eu li, mas o que me levou a fazê-lo? Então, num instante, percebi que Deus subjazia a tudo aquilo, e era o Autor de minha fé. Assim a doutrina da graça se tornou clara para mim, e dessa doutrina não me afastei até o dia de hoje, desejando que seja sempre esta minha confissão: “Atribuo minha transformação inteiramente a Deus” (Verdades chamadas calvinistas, São Paulo, PES; tradução não-publicada feita por Fabiani Medeiros diretamente da citação feita por C. J. Mahaney em seu Sovereign grace and the glorious mystery of election [Graça soberana e o glorioso mistério da eleição]).

E, como diz o próprio Mahaney, no mesmo livrete acima citado: “‘Graça soberana’, naturalmente, compreende muito mais do que a doutrina da eleição. Refere-se a todos os atributos e atos graciosos de Deus, no que se relacionam ao todo da vida, pois todas as coisas estão debaixo do cuidado soberano, gracioso e atencioso de Deus. Nada que o homem faça para Deus jamais se reduz à realização humana. Trata-se da misericórdia, da bondade e da capacitação graciosa de Deus. “… O que você tem que não tenha recebido? E se o recebeu, por que se orgulha, como se assim não fosse?” (1Coríntios 4.7). Uma compreensão correta da graça sempre promoverá a humildade”.

Sim, a graça é soberana, pois o Deus de graça é um Deus de fato soberano, que reina sobre tudo e sobre todos. “Ou será que você despreza as riquezas da sua bondade, tolerância e paciência, não reconhecendo que a bondade de Deus o leva ao arrependimento?” (Romanos 2.4).

Parece que na hora da depredação do termo, há cristãos que ficam com “graça”, enquanto outros se concentram no “soberana”… Precisamos abraçar a graça sem legalismo, mas também sem permissividade. Por isso ela precisa ser simplesmente a paradoxal (e nunca contraditória!) “graça soberana”. Não uma graça que nos deixa à deriva, mas uma graça que nos encaminha. Não uma graça que nos coerge, mas amorosamente nos convence dos elevados caminhos do Pai e, como dizia o texto de Tito que citei em meu post anterior, ela nos ensina a dizer “não” à impiedade.

Encerro novamente com um cântico que traduzi, desta vez da pena de Mark Altrogge, um dos maiores compositores atuais da graça que conheço. Ele diz, lindamente, em A sinner who loves grace [Um pecador que ama a graça], do álbum Love beyond degree.

Quem sou eu pra tocar-te?
Como posso, ó Deus, render-te
gratidão e amor por tua graça a mim?
Quem sou eu para ver-te?
Como posso, ó Pai, mostrar-te
gratidão e amor por tua graça ao pecador?

Amo tua graça que me atrai, fazendo meu pecado odiar.
Amo tua imensa graça, da vida o vigor.
Pra sempre triunfante será.

Amo tua graça, pois salvou-me, cada dia a me mudar.
A tua graça gera a fome em mim
de te amar e obedecer.

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Publicado às 10 de dezembro de 2005 por em Graça soberana e marcado , , .
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