Para Rehder, um haikai!

rehder

Canção

(2009)

Foi-se ontem Jorge —

seu som, verdade em mil tons,

me inunda o alforje!

 

De Fabiano Medeiros (singela homenagem póstuma a um Artesão das palavras e dos sons!)

Espelho religião

espelho

Espelho religião

(1988)

Trago ao fundo, pra quem vê,

A tristura que dissimulo,

A perene sensação do que sou.

Ostento, contudo, ao menos perspicaz

A alegria que rotulo,

A fugaz sensação que não sou.

Trago ao fundo pra que vejam…

Levo junto, na fachada,

O incorrutível procedimento,

O que presumo ser e não sou.

Revelo, contudo, ao mais agudo,

O pérfido encantamento,

O terror do que sou.

Levo juntos, na fachada…

Trago e levo,

Ao fundo e na fachada,

O pavor,

O terror,

Dessa farsada…

De Fabiano Medeiros

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Amargura

(1988)

Fui-me sempre assim.

Assim brando, assim turbulento,

Assim cálido, assim branco.

Sou-me sempre desse jeito.

Desse jeito tímido, assim melancólico,

Assim amante, desse jeito distante.

Serei-me sempre assim desse jeito.

A um só tempo grande e pequeno.

Feio e bonito a um só tempo.

Enquanto me teces no que

és

e sou

e já me fizeste…

 

De Fabiano Medeiros

Sombras – meu cenário

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Sombras — meu cenário

(1988)

 

Caiu-me esta sombra n’alma,

deste teu lúgubre cinza azul,

deste teu brilho opaco de lua que se escondeu,

destas tuas folhas recumbentes

emurchecidas

desistidas,

tuas ondas serenamente apoquentadas.

E desta falta deste sol

que não te brilha fiel,

e desta tua soturnidade

a velar telhados e lados,

a enegrecer a paisagem,

a refletir-se nas águas…

 

Transmitiu-me à alma

a fatalidade que me espera

a efemeridade da boniteza

a inconstância dos seres.

A cena triste das embarcações

abandonadas

ao longo do percurso

ao longo da vida.

Uma angústia de quando se desistiu.

O desaponto de quando se tentou.

 

Cai-me, contudo, condizente,

ressoante,

inefavelmente significante…

 

Um eco que somente se cala

com o poder do Eterno Amor.

 

De Fabiano Medeiros

Eu tradutor – um poema

tradutor

eu tradutor

(2009)

As substantivas palavras

que lhe tomei por empréstimo

são justo as que lhe emprestei

numa permuta sedutora: transmuta

Nela pulo e danço, me refestelando

no colchão elástico de suas linhas

A rolar com os conectivos,

sacando o melhor verbo

agasalhando-o conforme o tempo

acompanhando-o do melhor assessor

Bebendo eu mesmo do mel dos matizes

Fartando-me do mosto das ironias

Eu sem ele não lançava essas palavras…

Ele sem mim morria mudo, calado

para os ávidos ouvidos de cá,

que sem mim para ele e para elas

não passavam de moucos!

De Fabiano Medeiros

Calendário – um haikai

aniversário

calendário

(2009)

Repousa hoje à mesa,

num junho, em cruel testemunho

que o tempo é dureza!

 

De Fabiano Medeiros

Dois “haikais” dos filhos e um “haicão”, do cachorrinho deles

schnauzer

haicão

(2009)

Durante o almoço,

se para e mete sua cara.

Quem sabe um osso?

(Kinder: 1 ano)

colorir

(2009)

Pai, vamos pintar?

Quem ganha é o Homem-Aranha.

Não vá rejeitar.

(Iago: 6 anos)

papo

(2009)

Pai, posso contar?

A história não é simplória.

’Cê vai me escutar?

(Caio: 12 anos)

De Fabiano Medeiros

Adeuses – um poema

aceno

adeuses

(2009)

Esse aceno —

que já me aparentou desnecessário —

outro dia

me flagrou nesta minha indiferença

Dos fundos vincos de seus dedos

pude o som ouvir altissonante…

“Segue adiante,

vai em frente

diferente:

ainda restas,

eu dissipo”

Contudo eis a voz transmutada

em súbita realidade:

resta ao resto

aqui também

análoga efemeridade

 

De Fabiano Medeiros

Intersecção – um poema

cartela da sorte

intersecção

(2009)

Por que fechar a janela?

por que despachar?

por que encolher a mão?

Não quero outro aproveitador!

Mas o que me aproveita encolher-me?

Prossigo o diálogo encetado

a intromissão

que era um grito de socorro

a interpolar meu mundo

e ainda pensando fazer algum favor

vejo que aprendo

humilhado

massacrado

na dor no olhar oculta

nas rugas da face em desistente sofrimento

nas roupas singelas ruças empelotadas

sob o frio das lajes, das esquinas, das calçadas, dos ventos, dos seres

nas mãos em suave frêmito sobrevividas à ressaca

precisa contar de onde vem em sua recém-conquistada lucidez,

para onde vai, o que faz, o que fez,

os filhos que plantou, a política que arvora, a crítica do sistema,

a que cruz se agarra, e falar, e falar sem me ouvir…

tudo sob o pretexto

de uma cartela de sorte

e eu deixo. para aprender mais

uma vez como é que se ama despretensiosamente

impossivelmente um ser

johndonniano que me

pertence por ser um ser

como eu em nada diferente.

 

De Fabiano Medeiros

Criação – um poema

filhos

criação

(2009)

agora sei os filhos

como cartas

lançados no prazer da mesa

retirados à pilha cega

a que manobras

nos obrigarão?

 

De Fabiano Medeiros

União – um poema

mente

união

(2009)

Por sobre a fronte, rente, abaixo

em dorido movimento

visto já na alva a Mente que alinhavo

a cada suspiro

com o fôlego de Outro Pulso

Pulsante receptáculo-triturador

(agulha afiada em

mãos como espada)

que aguardo usar como

sepulcro das minhas vicissitudes

De Fabiano Medeiros

Mais quentinha ainda

subversiveMais recente ainda é a publicação de mais uma tradução que fiz de Eugene Peterson.

Dessa vez, uma coletânea de artigos colhidos nos vários anos de seu ministério.

Há algumas coisas bem interessantes que valem a pena conferir. E eu chamaria atenção para como Peterson nos leva pela mão numa viagem literária que mostra de modo muito instigante e inspirador a presença do cristianismo em grandes nomes como literatura universal, como, por exemplo, T. S. Eliot e James Joyce, em seu Ulisses.

Espiritualidade subversiva é leitura difícil em vários pontos (leia um capítulo aqui). Mas vale a pena por várias razões! Uma delas sendo, sem dúvida, o destaque ao literário. É incrível como a literatura, como a vida, nos prepara para o ministério. E mais incrível como a rechaçamos, quando não a consideramos na melhor das hipóteses apenas uma coisa do mundo.

Toda literatura terá seu valor sob a lente do Evangelho. Mais legal ainda é ver como Peterson nos mostra o Evangelho na literatura!

Divirtam-se! Mas essa deve ser uma leitura para digerir aos poucos.